segunda-feira, 7 de novembro de 2011
É Kalom, Olhares Ciganos
“É Kalom, Olhares Ciganos” documentário que retrata a saga dos ciganos, considerados um das nações mais exóticas do mundo, devido ao misterioso universo cultural. O vídeo mostra a vida e o cotidiano de um grupo Kalon, formado por cerca de 200 pessoas, que vivem e percorrem Mato Grosso há mais de 80 anos. O objetivo do diretor, um jornalista de origem cigana, foi mostrar como essas pessoas enxergam as passagens da vida em seus rituais, além de contos e mitos, mesclando-os com as interpretações e vivências do cotidiano atual.
Fonte: http://camaleaoartecultura.blogspot.com/
sexta-feira, 24 de julho de 2009
A Margem da Margem
Por resistência das próprias comunidades e por falta de políticas públicas, a identidade cultural das populações ciganas sofre com o preconceito, a desinformação e até o risco de extinção
Por: Natalia Viana -
De longe já se avistam as tendas de lona laranja, enfeitadas com panos coloridos, em meio a tufos de mato. No acampamento cigano próximo à estação de trem de Itaquaquecetuba, São Paulo, vivem cerca de cem pessoas. Não há água encanada nem banheiros. As necessidades são feitas atrás de uma construção abandonada. Crianças correm entre as tendas e mulheres sentadas no chão de terra conversam. Acabam de voltar do centro da cidade, onde foram tentar ler a sorte de quem aceitasse o serviço. Sorriem com dentes encapados de ouro, mas segundo Elizete de Moraes, mulher do chefe do acampamento, o dinheiro é pouco. “Dá para levantar uns R$ 25 por dia. É difícil. As pessoas têm medo da gente.”
(Foto: Paulo Pepe)
A pouco mais de uma hora dali, Yáskara Guelpa, com feições e roupas indianas, vive numa ampla casa no bairro do Brooklin, de classe média-alta. Na espaçosa sala, panos indianos forram o teto e as paredes, ao lado de quadros de deuses hindus e santos – como a Santa Sara Kali, protetora para muitos ciganos. Filha de indianos, Yáskara é jornalista, feminista e muçulmana. Como muitos ciganos no país, nunca foi nômade e é realizada profissionalmente – foi diretora de uma grande revista feminina. Embora transmita aos filhos, netos e bisnetos a tradição herdada dos pais, não sai por aí dizendo que é cigana.
>> Álbum de fotos exclusivo da reportagem Vida CiganaO preconceito sempre fez parte da vida dessas duas mulheres. Elas compõem uma das minorias mais marginalizadas do Brasil. Apesar de viverem no país há quase 500 anos, muitos ciganos mantiveram-se à parte da sociedade, com língua própria, vida nômade e costumes nunca compreendidos pelos “gadjôs”, os não ciganos. Falar mal ou desconfiar deles é absolutamente comum. A reportagem saiu à rua para perguntar o que as pessoas achavam deles. “Ladrões”, “vagabundos” e “aproveitadores” foram as respostas mais usadas. Mio Vacite, famoso músico do Rio de Janeiro (sua história foi contada na novela Explode Coração, de 1995), passou grande parte da vida brigando para mudar a definição de “cigano” nos dicionários: “boêmios; astutos, velhacos, trapaceiros”, eram sinônimos que constavam do Aurélio.
A generalização evidencia a ignorância sobre essa comunidade tão heterogênea. Existem três clãs no Brasil, cada qual com sua história e língua particulares. Os ciganos Calon, de origem ibérica, aportaram aqui expulsos como bandidos de Portugal, na época colonial, e ainda vivem em barracas e mantêm o estilo de vida nômade. Os Rom e os Sinti, vindos da Europa Central e do Leste, chegaram no início do século passado, integraram-se à sociedade e hoje são ricos comerciantes, advogados, acadêmicos. Mas não importa a classe social, o estigma atinge a todos. “Dizem que nós roubamos galinha, roupa de varal, bujão de gás e crianças”, resume Cláudio Iovanovitch, de uma rica família de comerciantes em Curitiba. “Só não lesamos o erário, isso fica por conta de outras etnias”, brinca o ativista, presidente da Associação de Preservação da Cultura Cigana do Paraná.
Nomadismo e rolos
A discriminação prejudica ainda mais os ciganos nômades, os Calon. É difícil arrumar terreno para montar acampamento, e muitas famílias seguem sendo expulsas de cidade em cidade como na época colonial. “Você arma a barraca todinha e de um dia pro outro tem de tirar e ir embora. Chega o pessoal da prefeitura e diz que não pode ficar”, conta Claudinei Pereira, do acampamento de Itaquaquecetuba. O estigma é ainda mais reforçado porque, na falta de alternativas, alguns acabam sendo empurrados para a ilegalidade para conseguir dinheiro. O chefe do acampamento, Euclides Ferreira, conta como os homens levantam algum trocado: “Vivemos de rolo: vender carro, trocar, a gente compra mercadoria para revender do Paraguai...”.
Existem no Brasil milhares de acampamentos como esse. A maioria não tem infraestrutura nem recebe visita de agentes de saúde ou assistente social. A Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH) estima que 90% sejam analfabetos. Em Itaquaquecetuba, a maioria das crianças nunca foi à escola, nem seus pais. Claudinei teve de brigar por uma vaga para o filho de 8 anos. Diferentemente da maioria dos ciganos nômades, ele quer que os filhos estudem, tenham carteira de motorista, possam chegar num lugar e se virar sem ter de perguntar que ônibus é esse ou que placa é aquela
Por falta de certidão de nascimento, não podem ter carteira de identidade ou de motorista, votar, entrar na fila da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) nem se alistar no programa Bolsa Família. “Muitas vezes o cigano só ganha certidão de nascimento quando morre. Há séculos os ciganos nascem, vivem e morrem às próprias custas e risco”, explica Cláudio Iovanovitch. Muitas vezes, o Estado só chega em forma de polícia. O padre Jorge Pieron, da Pastoral dos Nômades, diz que as visitas são frequentes e muitas vezes agressivas. “A polícia não reconhece que a barraca é o lar do cigano e, portanto, inviolável segundo a lei brasileira”, conta ele, que já morou em acampamentos em São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Espírito Santo. “Muitas vezes eu preciso agir para evitar prisões arbitrárias.”
Políticas públicas
Acabar com esse círculo vicioso é ainda mais complicado pela total falta de informação por parte do poder público. Nunca foi feito um levantamento oficial sobre quantos são os ciganos ou como vivem. O IBGE jamais incluiu a categoria nos seus levantamentos. Nem mesmo as organizações ciganas têm números confiáveis: as estimativas variam de 250 mil a 1 milhão de indivíduos no país. “É uma falha nossa”, admite o subsecretário de Promoção dos Direitos Humanos da SEDH, Perly Cipriano.
Para Yáskara Guelpa, que representa a etnia na Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, a desinformação leva à discriminação nos serviços essenciais. “Os profissionais de saúde não sabem quem somos, alguns têm preconceito e outros um romantismo estereotipado”, diz.
Em 2002, demandas dessa população começaram a ser incorporadas ao Plano Nacional de Direitos Humanos. Recentemente, alguns avanços têm ocorrido. Em 2006, o 24 de maio, dia de Santa Sara Kali, tornou-se Dia Nacional dos Ciganos. No ano passado, o Prêmio Culturas Ciganas, do Ministério da Cultura, ofereceu R$ 10 mil a 20 projetos de resgate e valorização dessa cultura. E foi lançada a Cartilha Nacional dos Direitos Ciganos. Elaborada pela advogada cigana Mirian Stanescon, representante dos ciganos no Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, a publicação conta um pouco da história do povo no Brasil e lista direitos e reivindicações do movimento.
Desde o lançamento, a cartilha vem sendo divulgada em comunidades em todo o país, em um projeto liderado pelo Centro de Referência dos Direitos dos Povos Ciganos, parceria da SEDH com a Pastoral dos Nômades, que oferece assessoria jurídica à comunidade. Outros ministérios acompanham a caravana para divulgar políticas voltadas ao povo cigano. “Queremos resgatar sua autoestima. É a primeira vez que o governo escuta os ciganos”, conta Mirian Stanescon. “A proposta é combater o preconceito que existe entre as autoridades”, explica o padre Wallace Zanon, coordenador do Centro de Referência.
Mas muitas políticas anunciadas pelo governo – como um projeto educacional voltado para a etnia e inclusão do grupo no cadastro nacional do Sistema Único de Saúde (SUS) – ainda não andaram. Segundo o Ministério da Saúde, o processo está parado porque o cartão do SUS está sendo reestruturado. Mesmo assim, alerta o Ministério, é inconstitucional negar atendimento hospitalar a ciganos, mesmo sem documentos. Por isso, um dos focos desses encontros tem sido levar informação aos municípios, para que atendam os ciganos e disponibilizem terrenos com infraestrutura para eles. Mas as conversas são apenas informais. “Não temos autonomia para exigir nada deles”, diz Perly Cipriano, da SEDH.
Cláudio Iovanovitch se diz cético: “O governo brasileiro está inadimplente com a nação cigana. Aquele ciganinho debaixo da tenda, por mais paupérrimo que seja, gera impostos sobre tudo o que consome, mas por enquanto não existe ainda nenhuma política pública em prol desse segmento”. Padre Wallace reconhece as boas intenções, mas reclama da falta de ações concretas. “Enquanto isso não acontecer, os ciganos continuarão comemorando o seu dia nacional na condição de povo invisível, à margem da margem da sociedade.”
Cultura em extinção?
Os primeiros ciganos chegaram ao Brasil degredados de Portugal entre os séculos 16 e 18, para livrar a metrópole desse povo de “escandaloso procedimento”, nas palavras de dom João V. Aqui recebiam um tratamento cruel, que só mudou em 1808. Com a chegada da corte, passaram a ser vistos com romantismo e sua cultura foi valorizada. Muitos enriqueceram, em especial com o comércio de escravos; mas com a Abolição perderam tudo. No começo do século 20 ocorreu a segunda grande imigração. Os Rom, vindos do Leste Europeu, acabaram sendo incluídos na sociedade, embora até hoje vivam com discrição. No livro A História dos Ciganos no Brasil, o historiador Rodrigo Corrêa Teixeira observa que eles historicamente aparecem como “incivilizáveis” e “inúteis”. Livrar-se deles fazia parte do projeto de construção da identidade nacional.
Um dos problemas que hoje preocupam a comunidade cigana é a perda da identidade cultural. Até por conta da discriminação, muitos grupos têm perdido o conhecimento da língua, danças e costumes. “Meu povo está em extinção”, sentencia Cláudio Iovanovitch, da Associação de Preservação da Cultura Cigana do Paraná.
Iniciativas de se organizar e reivindicar políticas públicas que preservem sua identidade esbarram muitas vezes nos próprios ciganos, que permanecem como comunidade fechada e dividida. Muitos se negam a ensinar a sua língua (que é ágrafa, ou seja, não tem escrita) para não ciganos. O linguista Fábio Dantas de Mello teve de convencer ciganos Calon da cidade de Mambaí (MG) para poder fazer sua pesquisa. As gerações mais jovens estavam perdendo palavras do seu idioma, usando-as mescladas ao português. Fábio elaborou uma lista temática de palavras-chave com sua devida tradução para publicar em livro, mas não o fez a pedido dos ciganos.
O antropólogo Nicholas Ramanush, cigano do clã Sinti, está prestes a lançar o primeiro dicionário da sua língua, o sintó. “A língua está se perdendo porque nunca foi escrita”, acredita. Para ele, os ciganos deveriam abrir sua cultura para poder preservá-la. Ao mesmo tempo, deveriam estar mais abertos à cultura e educação não ciganas. Sua ONG, Embaixada Cigana do Brasil, promove alfabetização voluntária no acampamento de Itaquaquecetuba.
Outras tradições ciganas destoam cada vez mais em tempos modernos, como o machismo, presente ainda em algumas famílias, e os casamentos arranjados entre adolescentes. O músico Mio Vacite admite ser conservador: “É uma questão de preservação da etnia. Se você deixa a menina chegar aos 20, 21 anos, ela pode se apaixonar por outro rapaz cigano ou não cigano, o que é pior ainda. Qual é a função da mulher? É seguir os costumes do marido. Então vai ser mais uma ovelhinha fora do rebanho”.
Saindo da lona
“Tem lugares em que não dá pra falar. Não posso arriscar o emprego”, diz Adriana Sbano. Cigana do clã Kalderash, professora de circo e integrante de uma tradicional família circense, ela prefere esconder sua origem nos colégios de classe alta em que leciona.
Benedito Sbano, o palhaço Picoli, pai de Adriana, conta que muitas famílias circenses no Brasil são ciganas, mas não falam por medo de discriminação.
A história está repleta de personalidades cuja origem cigana permanece desconhecida – como a poeta Cecília Meirelles, o palhaço Carequinha e o violinista Guerra Peixe.
O caso mais ilustre foi o presidente Juscelino Kubitschek. De origem austro-húngara, seu bisavô foi um dos primeiros ciganos Rom a chegar ao país.
Mais recentemente, alguns têm assumido sua etnia. Entre eles, o músico Wagner Tiso, o comediante Dedé Santana e a atriz Maria Rosa.
“Tem alunos que acham maravilhoso, outros ficam surpresos. Seria um crime negar minha origem e não defender o povo cigano com unhas e dentes”, diz Dantas da Cruz, professor do Departamento de Biologia da Universidade Estadual de Feira de Santana (BA).
segunda-feira, 13 de julho de 2009
MANA - GITANA
Soñé que la perdía
es verdad
dónde estás chiquita,dónde estás
y fuí con la gitana
a preguntarle dónde se ha metido.
No,no, no quiero fingir me siento como morir
sálveme
búsquela en su bola de cristal
o deme alguna pista sensorial
o digame el echizo para allarla.
Coro
Cuenta gitana por favor
dónde busco a mi corazón
mis palmas te dicen la razón
o cuentan de mi dolor.
Y ya lo sé
por pobre me desprecias, no hay razón
yo te brindo un gran corazón
si puedes escucharme, oh mi amor
dame una oportunidad
oh oh oh oh oh oh ay amor oh oh oh
nara na nara
Yo te doy sinceridad
yo te doy felicidad
vuelve ya
eres una luna impenetrable.
Coro. dos veces
El se acompaña con los acordes del verso
Quizá la luna me caiga en pedazos
quizá la muerte me pise los pasos
por pobre estoy sufriendo tus rechazos
quizás una palabra que no pienso más vivir.
Coro.
Oh no no devuelvanlo oh no no devuelvanlo
oh mi corazón,
lara la la lalá
Oh no no devuelvanlo oh no no devuelvanlo
oh mi corazón
Oh no no devuelvanlo oh no no devuelvanlo
oh mi corazón.
sábado, 11 de julho de 2009
Projeto Cidadania para Ciganos e Nômades Urbanos é lançado em Belo Horizonte
terça-feira, 26 de maio de 2009
Ciganos de Uberaba recebem atendimento
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O assessor político, Rubério Santos, esclarece que a iniciativa de caráter social atende os ciganos do Jardim Ozanan e Jardim Planalto, uma vez que hoje a mesma acontece no assentamento Oneida Mendes, bairro Jardim Brasília.
A educadora social Sonaly Pereira enfatiza que essa ação tem o objetivo de elaborar um projeto e/ou plano de atenção à comunidade em específico, que, no caso, são os ciganos.
“Nós disponibilizamos à comunidade cigana, neste ‘Dia de Cidadania da Comunidade Cigana’, assistentes sociais, educadores, nutricionistas e membros da saúde para auxiliar as famílias nômades em quesitos de educação e saúde.”
A orientadora social acrescenta que foram regularizados os cartões de vacinação das crianças, passadas orientações sobre higiene bucal, dentre outras.
“O mais importante é o cadastramento ‘social’ das famílias, realizado para servir como a base do nosso futuro projeto de atenção especial à comunidade nômade”, completa Sonaly.
Entretanto, os ciganos do Jardim Planalto reivindicam “bicos” de água no local. “Nós não temos água e as mulheres têm de se deslocar até outros bairros para conseguir água para os nossos filhos”, conta o líder cigano Ricardo Alves da Silva.
O assessor político Rubério Santos explica que o terreno ocupado por esses ciganos é particular, e que por isso não se pode fazer ligação domiciliar de água na área.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Ciganos, um milênio de história
O que levou a interessar-me pela cultura cigana foi o entusiasmo com que ouvia quando
adolescente no final dos anos sessenta, juntamente com Mãe Toinha, em ondas curtas,
através da Rádio Nacional (Rio), a novela radiofônica de Janete Clair (1925-1983)
Aqueles Olhos Negros, romance entre os irmãos Vladimir (cigano) e Nadja aristocrata russa, que haviam sidos trocados por vingança quando nasceram. Em 1972 quando meus pais mudaram pela terceira vez para o município de Lauro de Freitas (grande Salvador), residia nas proximidades da cidade um bando de ciganos, seis ou sete famílias que habitam em casas. Cheguei a flertar uma linda ciganinha da comunidade local, mas os constantes olhares desaprovadores do pai me fizeram desistir da idéia. Ao lado de Celso Campinho e Timo Andrade estive em 1977 entre a equipe de produção do longa-metragem “Ciganos do Nordeste”, dirigido por Olney São Paulo, filmado na Bahia.
Em dezembro de 1985 conheci em Havana a numerosa família do cigano polaco Burtia Cuik, que se estabeleceu em Cuba em 1929 e falecera no ano de 1949. Casado com Terca (prima ucraniana) teve 19 filhos, todos nascidos sem exceção, em países diferentes. Levado pelas mãos do brasileiro Hélio Dutra (cidadão cubano), passamos boa parte da noite em companhia dos ciganos, conversando, ouvindo música e compartilhando da sua dança. Ao me despedir, oferecera-me um livreto sobre “a música e a dança cigana”. Na época Rogelio Sandin, descendente direto de Burtia estava preparando um livro sobre a saga de Burtia Cuik.
Anos mais tarde atendendo a solicitação do recente amigo, o maranhense Euclides Barbosa Moreira Neto, jornalista e cineasta, que conheci participando da XVI Jornada de Cinema da Bahia (1987), publiquei vários artigos entre setembro e dezembro do mesmo ano no jornal O Estado do Maranhão. Na época foi informado pela companheira Zoraide Vilas-Boas, jornalista da Rádio Educadora da Bahia – IRDEB, que se encontrava em São Luis participando do Festival de Cinema, organização por Euclides, que lera um longo artigo sobre os ciganos e sua cultura milenar. Da série dos artigos publicados no referido periódico, Euclides enviou: Zumbi, capitão dos Palmares e Fernando Pessoa. Outros textos foram publicados entre os quais aquele sobre os ciganos, que infelizmente fiquei sem cópia. Em 1996 já residindo em Aracaju, convidado por uma professora da UFS a participar de uma cerimônia nupcial cigana, que aconteceu no ajuntamento que ficava no bairro Rosa Else, retomei as leituras sobre os ciganos. Seja qual for o motivo o tema continua me fascinando.
Origem do Povo
A origem do cigano é desconhecida. Os estudiosos que procuram reconstituir a sua história afirmam que a sua primeira grande dispersão pelo mundo se deu a partir da Índia e que viveram por muito tempo no Egito antigo. Hoje eles podem ser encontrados em várias partes do mundo. Os próprios ciganos desconhecem a sua origem e a explicam por meio de mitos e lendas. Estas lendas se reportam às explicações cristãs de criação do mundo e destacam a sua origem pura, sem o pecado original, que contaminou os demais homens. Eles são os homens puros, em oposição aos não-ciganos. O seu nomadismo é explicado como predestinado por Deus, que não lhes deu uma terra, mas lhes concedeu o mundo todo para andarem livremente.
A história dos ciganos, assim como a conhecemos atualmente é breve: cerca de 1000 anos, e principia com seu aparecimento no Ocidente europeu. Pouco conhecido e pouco estudado no Brasil, os ciganos, entre nós, continuam cercados de “mistérios” decorrentes da incompreensão, do etnocentrismo e do preconceito. Quase nada sabemos dos acontecimentos anteriores à sua migração; nem mesmo se já eram nômades ou sedentários. A história do povo cigano é a história de um grupo que jamais fez guerras, nem aspirou ao poder, mas desde o início sofreu com a guerra de outros e foi muitas vezes perseguido.
Não há comprovação histórica de onde nasceram os ciganos. Alguns afirmam que a origem está na Turquia e de lá emigraram para o Egito. De acordo com o folclorista e estudioso Luis da Câmara Cascudo (1898-1986), saíram os ciganos da Índia, Sind e Pendjab, vagueando pelo Afeganistão, Pérsia, Armênia, Ásia Menor em fora, entretanto na Europa pela Grécia, derramando-se pela península Balcânica, vindo à Valáquia, Moldávia, Hungria, onde são notados em 1417. Surgem nas terras germânicas um ano depois e, em 1427, estão em Paris. Em 1447 chegam à Catalunha. Nesse mesmo século XV estão em Portugal. A sua popularidade levou o dramaturgo Gil Vicente (1465-1536) escrever o Auto das Ciganas (1521), onde os personagens Martina, Cassandra, Giralda e Lucrecia confabulam em mal castelhano, diante do Rei D. João III, no seu Paço de Évora, no ano de 1521.
Chegada ao Brasil
O mais antigo documento conhecido no Brasil, em que figura um cigano que aqui aportara com mulher e filhos é um alvará de D. Sebastião, de 1574, que troca a pena de galés de João de Torres por exílio. Acredita-se que os ciganos começaram a vir para o Brasil nos séculos XVI, XVII e XVIII. Os primeiros eram degredados para a Bahia e Minas Gerais (Congonhas do Campo) foram os primeiros centros de concentração, ao tempo da colônia. Em 1718 chegam à Bahia as primeiras famílias ciganas. O Senado da Câmara deu-lhe para morada um trecho da Freguesia de Santa’Ana, perto da Palma, que passou a ser conhecido como Santo Antônio da Mouraria. Da antiga ocupação, não há atualmente nenhum vestígio, nem mesmo em outros pontos da cidade do Salvador.
Em 1710, os ciganos foram vitimas de violenta perseguição. As autoridades perceberam que os ciganos era um grupo homogêneo, unido, com uma só língua, com usos e costumes próprios, e por isso poderiam tornar-se uma força e um perigo. O decreto de 11 de abril de 1718 chamava à atenção das autoridades locais para o policiamento das atividades dos ciganos: “foram degredados os ciganos do reino para a Praça da Cidade da Bahia, ordenando-se ao governador que ponha cobro e cuidado na proibição do uso de sua língua e gíria, não permitindo que se ensine a seus filhos, a fim de obter-se a sua extinção”. Os povos ciganos que ainda resistem, procuram as estradas. Em 1726 e 1760 bandos de ciganos foram assassinados em São Paulo e, por decisão do Senado da Câmara, expulsos da cidade.
O Barão de Eschwege (1777-1855), militar, engenheiro e naturalista alemão, após ter trabalhado em mineralogia na Alemanha, passou a serviço de Portugal, vindo para o Brasil por ocasião da transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, narra a participação entusiasta de um grupo cigano na comemoração pública quando do casamento da Princesa D. Maria Teresa, primogênita do Príncipe Regente, com seu primo, Infante de Espanha, D. Pedro Carlos, a 13 de maio de 1810. Eschwege informa: “Os ciganos foram convidados para as festas dadas na capital brasileira por ocasião do casamento da filha mais velha de D. João VI com o Infante espanhol. Os moços desta nação, trazendo à garupa suas noivas, entraram no circo montando belos cavalos ricamente ajaezados. Cada par pulou no chão, com incrível agilidade, e todos juntos, executaram os mais lindos bailados que eu jamais vira. Todos só tinham olhos para as jovens ciganas e os outros bailados que também executaram parecendo ter tido por único fim fazer sobressair os dos ciganos como os mais agradáveis”.
O historiador e médico baiano Mello Moraes Filho (1843-1919) que desenvolveu vários estudos etnográficos e folclóricos, em crônica “Um casamento de cigano em 1830” publicado em Festas e Tradições Populares do Brasil (1901) diz que: “Nessa época muitíssimos era os ciganos aqui residentes, entregando-se ao comércio de escravos e cavalos, empregados no foro e em vários misteres, todos porém constituídos em sociedade à parte, onde mantinham, sem a menor quebra de lealdade, as suas tradições e os seus preconceitos de raça”. O desenhista e pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848), cuja obra é de grande valor para o estudo da história do Brasil no início do século XIX, integrou a missão artística francesa que veio ao Brasil em 1816, permanecendo por 15 anos, exercendo intensa atividade didática, escreveu e ilustrou “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil” em três volumes (1834-1839) documentários sobre a natureza, o homem e a sociedade fluminense no princípio do século XIX.
Durante sua estada em nosso país (1816-1831), Debret retratou-os e sobre eles deu o seu depoimento, afirmando que caracterizavam “tanto pela capacidade como pela velhacaria que põem no seu comércio exclusivo de negros novos e de escravos civilizados”, informando que “os primeiros ciganos vindos de Portugal desembarcaram na Bahia, e se estabeleceram, pouco a poço, no Brasil, conservando nas suas viagens, as habilidades do povo nômade”. E contaminado, ele também, pelo preconceito, afirma: “Esta raça desprezada tem por hábito encorajar o roubo e praticá-lo; roubam sempre alguma coisa nas lojas onde fazem compra e, de volta para casa se felicitam mutuamente por sua habilidade repreensível”. No Rio de Janeiro eles se instalaram na Rua dos ciganos (atual Rua da Constituição) até 1808, quando procuraram outras localidades mais próximas das estradas do interior, levados pelo seu comércio de ouro e de cavalos.
Perseguições
Os ciganos sofreram, ao longo do tempo, muitas perseguições. No século XVI, na Inglaterra, eram de tal modo mal vistos que todos aqueles que com eles se relacionassem corriam o risco de ser condenados à morte e ter seus bens confiscados, sem direito a julgamento. Na Europa Central, nos séculos XVII e XVIII, foram também perseguidos, de modo implacável, em vários estados. Desde 1933, a imprensa nazista começou a acentuar que os ciganos e judeus eram raça estrangeira, inferior, e que teriam “contaminado” a Europa com o um corpo estranho.
As autoridades nazistas, com o apoio da generalizada antipatia contra os ciganos, puderam facilmente percorrer a via do extermínio desse povo. A 17 de outubro de 1939, quando Heydrich, a mando de Hitler, proibiu-os de abandonar seus acampamentos. Três dias depois, após recenseamento, foram transferidos para campos de concentração, esperando serem enviados à Polônia. A última e mais cruel perseguição por eles sofrida foi, contudo, a determinada pelo governo nazista da Alemanha, quando se calcula que, em conseqüência, 10 por cento da população cigana de todo o mundo foi exterminada nos campos de concentração, entre os fins da década dos 30 e os da II Grande Guerra.
Cultura
Essencialmente nômade até hoje os ciganos vive pelo mundo, conseguindo sustentar-se basicamente do comércio. Devido à violência, as facilidades do mundo moderno, como as estradas asfaltadas e a necessidade de educar os filhos, tem tornado este povo sedentário, instalando-se com as famílias em cidades próximas as metrópoles. A tendência de todo cigano é fixar residência, não há mais lugar para o povo estar caminhando. Uma das justificativas para o sedentarismo é a perseguição social que o povo sofre, há quem ainda pense que todo cigano é ladrão ou gente que não presta.
Os ciganos têm um dialeto próprio denominado de shibi. Os grupos não têm certeza da origem da língua, entendida apenas por ciganos e ensinada pelos mais velhos aos mais novos que se interesse em aprendê-las. Acredita-se que a língua é de origem hebraica, com algumas variações incorporadas pelos próprios ciganos. Há indícios de cerca de 400 mil ciganos falam uma língua própria, o romani, e muitos outros falam dialetos dela, como o calo e o sinto. Esse povo alegre, que gosta de festas entre os grupos, falantes, gostam de gesticular muito, sem falar na hospitalidade, quando passam a conhecer o interlocutor, já que são extremamente desconfiados. Habilidosos, muitos homens usam a ourivesaria como meio de vida.
Qualquer cigano sabe cantar e tocar. Sua música não tem pressa de se exprimir, nem tampouco precisa dizer logo tudo e abruptamente. Os ciganos gozam universalmente de fama de músicos natos, e isto não se aplica apenas aos ciganos húngaros, mas também aos que vivem na Turquia e na Romênia. Os ciganos são logo reconhecidos pelas características próprias com que se apresentam (forma de vestir, de morar, o seu trabalho e a sua grande mobilidade). Eles têm os seus modos diferentes de vida, mas são pessoas iguais a qualquer outra, e precisa ser respeitadas também a individualidade do povo.
No Brasil, os ciganos são encontrados morando em casas, muitas delas luxuosas, ou em acampamentos de barracas. Alguns grupos se dedicam ao trabalho de fabricação, reparo e venda de utensílios de metal, enquanto outros se dedicam ao comércio e outras atividades correlatas. Alguns se apresentam muito ricos, fazendo uso de carros do último tipo, ostentando jóias de ouro, e outros são vistos como muito pobres, sujos, sem casas, adivinhos de sorte ou pedintes.
Referencia
Site Cinform
Jornalista, pesquisador e professor membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.Contatos através do email: gilfrancisco.santos@gmail.com
segunda-feira, 16 de março de 2009
Hungria vive uma escalada de ódio contra os ciganos
A escalada do ódio na Hungria contra os ciganos é preocupante e o sistema legal não basta para frear as cada vez mais frequentes mostras de racismo que causaram a morte de sete pessoas da etnia romani.
Essa é a conclusão de cinco ONGs, entre elas a União para as Liberdades Civis (TASZ), cujo representante, Balázs Dénes disse à Agência Efe que o que acontece no país é um verdadeiro "pogrom" (termo da língua russa que designa ataque maciço contra uma minoria étnica) contra os ciganos.
Em um ano as autoridades húngaras registraram mais de 50 atos violentos contra a população romani, que causaram a morte de sete pessoas, segundo dados da TASZ.
O último caso foi em fevereiro na aldeia de Tatarszentgyörgy, palco do assassinato de um cigano e de seu filho de cinco anos, que foi outro elo na cadeia de violência suscitada contra esta etnia.
Dénes ressaltou que nesta situação é de suma importância que o presidente da República, László Sólyom, dê um passo simbólico, como sua participação no enterro das vítimas.
A Polícia, após dias de pesquisas, admitiu que os ataques contra ciganos estão relacionados entre si e que possivelmente se trate de um mesmo círculo de criminosos.
György Ligeti, analista da Fundação Kurt Lewin - Pela Tolerância, explicou que a experiência geral é que em períodos de depressão econômica a maioria tende a culpar as minorias pelos problemas vividos pelo país.
Acrescentou que devido ao fato de muitos ciganos viverem na miséria, aumentou a possibilidade de que alguns se transformem em "delinquentes de sobrevivência". Isto irrita a maioria, que passa também por problemas existenciais, e que em muitos casos tacha todos os romanis de delinquentes.
Os partidos e organizações de extrema direita, que formam "uma muito pequena minoria, mas muito visível", são capazes de se aproveitar desta situação, quando falam do "crime cigano", tal como fazem o partido Jobbik e a Guarda Húngara (organização que reúne extremistas).
A situação é tão grave que a Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância do Conselho da Europa, e a secretaria de Exteriores americana criticaram a Hungria pelo aumento do racismo no discurso público.
O comissário europeu de Emprego e Assuntos Sociais, Vladimir Spidla, destacou que na Hungria e outros países-membros da UE "os ciganos se transformaram no alvo de ataques racistas".
Na Hungria, que conta com 10 milhões de habitantes, vivem, segundo alguns cálculos, cerca de 600 mil ciganos, cuja integração é uma tarefa pendente desde a queda da Cortina de Ferro, em 1989.
"Os partidos se aproveitam da situação antes das eleições, só para aumentar o número de votos", assegurou Ligeti.
Por sua parte, Anikó Bernát, socióloga do Instituto Tárki, opinou que se trata de um longo processo de 20 anos, já que os Governos da transição política não foram capazes de abordar o tema com a profundidade necessária.
"O desemprego e a miséria são problemas que caracterizam a situação social de uma grande maioria da população cigana na Hungria, até o ponto que agora cresce uma segunda geração romani que não viu seus pais trabalharem", acrescentou Bernát.
Por sua vez, o defensor público para as minorias, Ernö Kállai, em discurso perante o Parlamento pediu "um plano de paz étnico" e responsabilizou a elite política pelas relações tensas entre os diferentes grupos sociais.
As últimas pesquisas publicadas pela revista "HVG" mostram que o apoio ao partido radical-nacionalista de direita, Jobbik, que mobiliza com seu discurso de ódio alguns setores da população, já alcança, pela primeira vez, o limite mínimo de 5% para poder entrar no Parlamento.
Angela Kóczé, especialista do Centro Europeu pelos Direitos dos Ciganos, com sede em Budapeste, explicou que a aparição da Guarda Húngara, uma formação inspirada nos movimentos fascistas húngaros, "serve de instrumento de legitimação" para muitos que até agora não se expressavam contra os ciganos.
"Na creche de Szikszó (leste do país), onde temos um projeto, as professoras impõem a ordem entre as crianças ciganas ameaçando-as com a Guarda Húngara", ressaltou a pesquisadora.
Apesar de Kóczé opinar que a situação atual é dramática e pode ter consequências imprevisíveis, ela ressalta que esta crise social poderia criar as condições para repensar as estruturas e a convivência entre ciganos e húngaros.
