segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Chanel aposta em mulher-cigana no verão 2009



A mulher de Chanel será uma cigana no verão de 2009

PARIS (AFP) — A mulher de Chanel será uma cigana no verão de 2009, segundo a coleção de prêt-à-porter proposta nesta sexta-feira por Karl Lagerfeld, enquanto Jean-Charles de Castelbajac homenageou Barak Obama em um de seus minivestidos com lantejoulas, em um desfile alegre e colorido.

"Adoro a música. Depois de tudo, Chanel (Coco) teve uma aventura com Stravinsky, e eu tenho um caso com um violão", disse Lagerfeld aos jornalistas reunidos no Gran Palais de Paris, onde aconteceu o desfile.

"Chanel sempre fez vestidos esvoaçantes como estes. Ela chamava isso de cigana, é muito Chanel", afirmou o estilista, referindo-se às saias e vestidos longos vaporosos que predominaram na coleção.

No desfile, as modelos saíam de um cenário que reproduzia o edifício da maison Chanel, na parisiense Rue Cambon, como se tivessem acabado de comprar suas roupas e decidido dar um passeio.

Lagerfeld também pensou nas mulheres que preferem as saias mais curtas, com jaquetas em preto e branco e em tweed. Sapatos altíssimos decorados com plumas e meias opacas, que ficam transparentes na altura dos joelhos, complementam a produção.

"Assim, cobre-se o joelho, que era o ponto fraco para Coco Chanel. Isso se chama uma meia à francesa", explicou Lagerfeld, cujo desfile teve várias VIPs na platéia, como as atrizes Milla Jovovich e Laura Smet, a modelo Claudia Schiffer e a mulher do ex-presidente francês Jacques Chirac, Bernadette.

Já Castelbajac propôs uma coleção que não tem espaço para a tristeza. Com um cenário de um céu azul cheio de nuvens brancas, mostrou uma coleção alegre, com vestidos estampados com pequenos ladrilhos coloridos, como nas construções infantis, capas de plástico transparente e minivestidos de lantejoulas com efígies.

Entre eles, destacava-se o rosto do candidato democrata à Casa Branca, Barak Obama, o que provocou aplausos do público.

"Em um mundo onde há cada vez mais pobres, um mundo cheio de catástrofes, quis dar outro impulso", declarou Castelbajac, acrescentando que "não se trata de ter encontrado o luxo como resposta, mas sim que a verdadeira resposta é encontrar um sentido".

"Em meio a esse sentido, ponho minhas convicções: a esperança de um mundo melhor. Por isso, mostro Obama, a beleza (...) e o humor, porque, para sobreviver hoje em dia, é preciso ter muito humor", completou.

Na casa Valentino, Alessandra Facchinetti desvestiu, com elegância, a mulher do verão de 2009, propondo várias bermudas muito fluidas sob jaquetas leves, assim como vestidos bem curtos, e outros com mangas curtas franzidas, além dos longos cordões marcando a cintura.

Cinturões-jóia, entrelaçados de lantejoulas, ou de flores de cristal, sobre uma jaqueta preta deram o toque de sofisticação.

Fonte AFP Noticias 03/10/2008

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Apostar nas potencialidades dos jovens ciganos


É necessário apoiar os jovens ciganos na rentabilização das suas potencialidades tanto na sociedade com na Igreja, foi uma das principais conclusões do VI Congresso Mundial da Pastoral dos Ciganos, realizado em Freising na Alemanha, de 1 a 4 de Setembro de 2008. Na abertura do Congresso que contou com 150 participantes de 26 países de três continentes, e cujo tema foi “Os jovens ciganos na Igreja e na sociedade”, falaram o Presidente da Conferência Episcopal Alemã, o Núncio Apostólico na Alemanha, o Ministro do Interior, o Secretário de Estado do Ensino e do Culto da Baviera e o Presidente da Câmara de Freising, personalidades que afirmaram o seu apoio aos jovens ciganos e a sua solidariedade com a solução dos problemas que os afectam particularmente na actualidade.

O Arcebispo Agostino Marchetto, Secretário do Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes (CPPMI), entidade que organizou o Congresso, com o apoio da Conferência Episcopal Alemã, presidiu aos trabalhos do Congresso e leu a mensagem do Cardeal Renato Martino, Presidente do CPPMI, na qual se afirma que a Igreja tem necessidade do idealismo e da generosidade da fé jovem dos ciganos. O Cardeal Martino referiu ainda que os Estados devem garantir a todos os seus membros as condições propícias a um autêntico desenvolvimento integral da pessoa humana e deplorou as ambiguidades de Governos relativamente aos ciganos.

O Arcebispo Agostino Marchetto evocou os casos de sucesso de projectos de formação profissional para ciganos realizados na Hungria e em Espanha, neste caso pela Fundação Secretariado Gitano: o projecto ACCEDER que visa a aquisição de competências profissionais que permitem aos jovens ciganos o acesso ao mercado de trabalho. O Secretário do CPPMI mencionou as iniciativas de apoio aos ciganos, tomadas pela OSCE (Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa) e pelo Conselho da Europa no seio do qual funciona o Fórum Europeu dos Ciganos e Viajantes (ERTF), organismo constituído por ciganos que representam as estruturas ciganas dos países europeus; e sugeriu a formação de comissões mistas Igreja – Estado, com vista a programar estratégias de acção que visem solucionar os problemas que afectam os jovens ciganos.

O Congresso formulou diversas conclusões e recomendações nos domínios da evangelização e da promoção social dos jovens ciganos, cujo texto oficial será proximamente divulgado pelo CPPMI.

Constataram-se as inúmeras dificuldades que os jovens ciganos enfrentam na actualidade, em praticamente todos os países presentes, nos domínios da habitação, da educação e do emprego e no que concerne a discriminação, a indiferença e a marginalização a que estão sujeitos e, inclusivamente, o seu não acolhimento em muitas Paróquias; existem, no entanto, casos de ciganos leigos que assumem responsabilidades em comunidades paroquiais onde predominam os não ciganos; assinala-se ainda o trabalho evangelizador de sacerdotes e religiosas de etnia cigana.

No domínio das recomendações, acentua-se a necessidade de os ciganos assumirem as suas próprias responsabilidades na sociedade e na Igreja, de serem apoiados na rentabilização das suas potencialidades quer cívicas, quer religiosas e de a Igreja se abrir mais, no seu interior, à escuta e ao acolhimento dos ciganos e ao diálogo com eles. Neste último aspecto, enfatizou-se a necessidade da formação em interculturalidade nos Seminários.

O Congresso contou com a participação de numerosos ciganos e ciganas, tanto enquanto oradores como na qualidade de participantes. A delegação portuguesa integrou a D. Fernanda da Fonseca Maia (Delmar), cigana de Espinho, do Secretariado Diocesano da Pastoral dos Ciganos do Porto.

“Nós devemos combater o racismo não com as armas mas com o amor, com o trabalho e com a humildade, provando que para além dos nossos defeitos, nós também temos os nosso valores.” Palavras de Branislav Savic, jovem cigano de Itália, na Mesa Redonda dos Jovens Ciganos, durante o Congresso.

Francisco Monteiro - Agência Eclesia


terça-feira, 19 de agosto de 2008

Ciganos desafiam invisibilidade e buscam cidadania


BRASÍLIA - Em Aracaju, ciganos vivem em um antigo galinheiro. Em Goiás, diversas prefeituras proíbem os nômades de erguer suas barracas. Em todo o Brasil, membros da etnia Calon, a mais pobre, vivem em condições precárias de saneamento e saúde. Pela tradição de invisibilidade, boa parte se recusa a tirar carteira de identidade ou receber técnicos do IBGE. Em meio à discriminação de séculos de história, lideranças ciganas de vários Estados brasileiros estão se articulando, neste início de milênio, para levar finalmente cidadania a seu povo.


O relato de ciganos vivendo em um galinheiro, nos arredores de Aracaju, foi feito à reportagem na terça-feira, dia 21, pelo antropólogo Frans Moonen, professor aposentado da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). É dele a posição de que não há estatística segura sobre o número de ciganos no Brasil. Uma pesquisadora falou uma vez que são 150 mil, e em outras ocasiões 300 mil, 600 mil e 800 mil. O fato é que eles são muitos, e com problemas decorrentes da natalidade:

- As famílias que vivem em acampamentos não possuem informações sobre controle de natalidade e uso de contraceptivos – descreve a paulista Lara Orlow, Calon de Guarulhos que freqüenta acampamentos pobres em Franco da Rocha. - Geram muitos filhos, e na maioria dos casos, entregam as crianças ainda recém-nascidas a outros ciganos com melhores condições de vida ou ainda os dão por adoção a gadjes (não ciganos), perdendo suas raízes, costumes e histórico cultural.

Os ciganos têm agrupamentos significativos em municípios como Campinas (calcula-se que haja 400 famílias), Curitiba, Aracaju e Nova Iguaçu, entre outros. Apesar da diferença, ou mesmo rivalidade entre etnias como Rom (subdividida por sua vez em vários grupos), Calon e Cindi, há convergência no culto à família e, hoje, um início de aproximação visando a conquista de direitos para todos. O evento do dia 21, com lideranças ciganas no Palácio do Planalto, pode ser considerado um marco nesse sentido.

A ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, não compareceu ao evento promovido por sua pasta. Por conta do lançamento do GT Cultural Cigano, porém, o ator Sérgio Mamberti, secretário da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, prestigiou os ciganos e acenou com a possibilidade de um edital específico para projetos por eles apresentados, a exemplo do que já está sendo feito com comunidades indígenas.

As reivindicações dos Calon e Rom presentes ao evento, convergiram em sua maioria. Os ciganos querem mais visibilidade, reconhecimento e condições de saneamento, educação e saúde nos acampamentos. Querem acesso à cultura, e verbas pelos programas de incentivos governamentais para “contar a própria história”.

E esta é uma história de discriminações.

- Eles chegaram ao Brasil acorrentados, no século 19 – conta a tia de Lara Orlow, a paulista Márcia Yáskara Guelpa, da Associação de Preservação da Cultura Cigana (Apreci) – Os negros viviam em situação melhor, pois recebiam comida. Os ciganos viviam nos arredores, e quando entravam na cidade não podiam nem pisar na calçada.

Mesmo hoje não é difícil ver alguém atravessar a calçada, nas grandes cidades do Brasil ou da Europa, quando aparece um cigano. Eles são estigmatizados como ladrões, ou vagabundos – antigamente, até como “raptores de criancinhas”, como conta o paranaense Cláudio Iovanovitchi, do Conselho de Promoção da Igualdade Racial.

- Essa de raptar crianças quem criou foi o Miguel de Cervantes, em um de seus contos – afirma Iovanovitchi. No Brasil, estamos com uma legislação que é uma criança de 2 anos. (Os ciganos foram incluídos no Programa Nacional de Direitos Humanos II, durante o governo FHC.) E na hora em que conseguirem dividir a voz dos excluídos, os primeiros a dançar serão os ciganos.

Em Franco da Rocha, Carlos Calon, um funcionário da prefeitura, cavou uma trincheira em defesa dos que moram em acampamentos na região:

- Não são expulsos porque eu brigo por isso. Falo: então eu vou embora. Se eu não sou bem-vindo, então vou embora. Cigano é um pelo outro.

O goiano Jesus, um Calon que se orgulha da filha ter passado num concurso público para professora, conta que está difícil montar um acampamento em seu Estado, pois várias prefeituras têm promulgado leis proibindo as barracas. “Não há nada que possam fazer por isso?”, pergunta.

Segundo Iovanovitchi, os ladrões locais, nesses municípios pequenos, desenvolveram o costume de promover ondas de furto no período em que os ciganos lá estão. Acusados, os ciganos vão parar na polícia. Sem RG, sem endereço, sem testemunhas a favor, acabam sendo pressionados a deixar o local. E o círculo vicioso se perpetua.

Esse círculo é tão amplo que a discriminação atravessa as classes sociais. A coordenadora da Fundação Santa Sara Kali, Mirian Stanescon Batuli, uma orgulhosa e bem vestida Kalderash (ramo dos Rom que, segundo o antropólogo Doonen, proclama-se autêntico e nobre), “filha de cigano rico”, diz que o preconceito começa na infância:

- Se sumia uma caneta na sala, a primeira pasta revistada era a minha. Até chegar na faculdade foi assim.

Ela conta que quando estudou advocacia, há 33 anos, o preconceito vinha dos próprios ciganos:

- Eu era alvo de chacota nas festas ciganas. “Lá vem a doutorinha”, diziam.

Sobre a possibilidade de cotas para ciganos nas universidades, Mirian defende posição polêmica:

- Se 99% do meu povo é analfabeto, vou lutar por faculdade? Quero uma unidade médica onde tenha uma mulher para tocar nas ciganas. Elas não vão porque os maridos não as deixam serem tocadas por um homem. É mais fácil colocar uma ginecologista do que mudar uma cultura - raciocina.

E, dirigindo-se aos gadjes, fulmina:

- Do mesmo jeito que vocês têm medo da gente, nós temos medo de vocês.

ALCEU LUÍS CASTILHO
Agencia Reporter Social

sábado, 16 de agosto de 2008

ALEMANHA SEDE DO VI CONGRESSO MUNDIAL DA PASTORAL DOS CIGANOS


Realizar-se-á de 1 a 4 de Setembro próximo, em Freising, Baviera, Alemanha, o VI Congresso Mundial da Pastoral dos Ciganos, promovido pelo Pontifício Conselho da Pastoral para os Migrantes e os Itinerantes, sobre o tema “Os ciganos jovens na Igreja e na sociedade”.

Foi em Freising que o Papa Bento XVI estudou e foi ordenado sacerdote; enquanto Arcebispo de Munique celebrou Missa frequentemente na catedral de Freising e participou em encontros no local onde o Congresso se vai realizar.
O Congresso será inaugurado pelo Cardeal Renato Martino, Presidente do Pontifício Conselho da Pastoral para os Migrantes e os Itinerantes. Após a abertura dos trabalhos o Arcebispo Agostino Marchetto, Secretário do mesmo organismo vaticano falará sobre “Os jovens ciganos, um recurso da comunidade civil e eclesial”.
A juventude cigana será tratada na sua realidade religiosa pelo antigo Diretor nacional da Pastoral dos Ciganos de França, P. Denis Membrey e na sua situação socio-política pela Drª Eva Rizzin, do Centro de Investigação e Ação contra a Discriminação dos Ciganos, da Itália.
As oportunidades para a colaboração cigana nos âmbitos educativo, profissional e político serão tratadas por representantes da Índia, Espanha (pela Irmã Belém Maya, cigana) e Romênia. O Congresso terá duas Mesas redondas: dos Diretores Nacionais sobre a evangelização e a promoção humana dos jovens ciganos e dos jovens ciganos presentes sobre o protagonismo dos jovens.
O Congresso será inaugurado pelo Cardeal Renato Martino, Presidente do CPPMI, seguindo-se a abertura pelo Arcebispo Agostino Marchetto, Secretário do CPPMI que falará sobre “Os jovens ciganos, um recurso da comunidade civil e eclesial”. A juventude cigana será tratada na sua realidade religiosa pelo antigo Director nacional da Pastoral dos Ciganos de França, P. Denis Membrey e na sua situação socio-política pela Drª Eva Rizzin do OsservAzione, Centro de Investigação e Acção contra a Discriminação dos Ciganos, de Itália.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Ederlezi


Esta Música é uma homenagem ao dia da chegada da primavera, onde o fim do inverno é o início de uma nova etapa. Coincide também com o Dia de São Jorge, de quem os ciganos Balcãs são devotos.Um dia para ser comemorado, para cantar para dançar e como de costume sacrificar e assar um carneiro. Esta versão foi idealizada por Goran Bregovic músico e compositor e foi adaptada no filme Tempo dos Ciganos de Emir Kusturica.


Segue Video e letra em Romani





Sa me amala oro kelena
Oro kelena, dive kerena
Sa o Roma daje
Sa o Roma babo babo
Sa o Roma o daje
Sa o Roma babo babo
Ederlezi, Ederlezi
Sa o Roma daje
Sa o Roma babo, e bakren chinen
A me chorro, dural vesava
Amaro daje, amaro dive
Amaro dive, Ederlezi
Ediwado babo, amenge bakro
Sa o Roma babo, e bakren chinen
Sa o Roma babo babo
Sa o Roma o daje
Sa o Roma babo babo
Ederlezi, Ederlezi
Sa o Roma daje

by Goran
Bregovic

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Acampamento cigano muda visual do Jardim América

Jacqueline Lopes
Bruno Arce


O acampamento da família cigana “Rorananoa”, do Paraná, chama a atenção de quem passa pela Rua Pacífico Lopes Figueira, no Jardim América, em frente ao Parque de Exposições Laucídio Coelho, em Campo Grande. As barracas grandes, na área em frente ao Comando do Corpo de Bombeiros, e a presença de veículos e crianças tornaram o ambiente semelhante a um camping.

Outro grupo de ciganos também está na Praça Ary Coelho, região central da Capital.

No Jardim América, são seis adultos e seis crianças com costumes e dialetos típicos. Não é possível entender o que é dito. O português tem um leve sotaque de quem nasceu no Paraná, de onde os Rorananoa são.

O líder do grupo, Cristiano Stevano Vit, de 21 anos, disse que há três anos a família escolhe aquele lugar para se instalar quando vem à Capital. “Somos mascates, vendemos enxovais nos bairros, nas casas”, diz.

Na entrada do acampamento, dois veículos Fiat Strada, com carroceria, e toda infra-estrutura de camping – fogão, tapetes, cadeiras e sofás – demonstram que ali a falta de paradeiro nada tem a ver com pobreza.

“A gente trabalha. Meu tataravô já era cigano. Não tem jeito de nascer e querer outra vida porque está no nosso sangue”, diz Vit com o filho de 8 meses ao colo.

Sorte

A leitura das mãos, que para muitos não passa de golpe, truque para conseguir dinheiro fácil, é segundo a cigana Daniela Stevano, de 21 anos, mulher de Vit, outra tradição.

O que é dito, tem que guardar segredo, diz. Só as mulheres ciganas têm o dom.

Vit explica que a sua família se concentra na região do Paraná, mas há centenas de outras que percorrem o Brasil e são conhecidas em diferentes estados.

O mistério em torno da vida e tradição tem a ver com os preconceitos e medos.

Nas cidades pequenas até ameaças da polícia o grupo já sofreu. “Falam que somos ladrões. Tem muito brasileiro ladrão por ai. A gente trabalha e muito. A gente tem que conversar e explicar quem somos ai nos respeitam”, relata Vit.

As crianças, segundo ele, são criadas junto aos pais e aprendem ler e escrever com eles. Por algum tempo eles ficam num único lugar para que os filhos possam estudar, mas logo colocam o pé na estrada. Os Rorananoa conhecem todo o Brasil e já estiveram no Uruguai, Bolívia e Paraguai.

Vit relata que uma vez, em Campo Grande, moradores de rua pediram para ficar junto ao grupo. “Com papelão, eles arrumaram uma cama para eles e dormiram com a gente”, lembra.

Para uma das mulheres que lavava a louça enquanto o casal dava entrevista, a vida sem paradeiro é cansativa. “Estou cansada disso. Me criei assim, mas não quero mais isso pra mim”, desabafa baixinho ela, de 40 anos.

Liderança

Como o chefe do grupo foi buscar mais enxovais em Ibitiganga (SP), Vit não autorizou que registro fotográfico ocorresse dentro da área. “Somos que nem índio, sem o cacique, a gente não pode tomar decisões”.

O motorista Vilne Santana, de 53 anos, que trabalha no Parque Laucídio Coelho no transporte de gado, considera a presença do grupo animadora para a região. “Eles são bacanas”, diz.

Cidadania

Em 2006, o repórter Alceu Luís Castilho, do site www.reportersocial.com.br, publicou matéria sobre os maus tratos sofridos pelos ciganos no país.

Em Aracaju, ciganos vivem em um antigo galinheiro, segundo a reportagem. Em Goiás, diversas prefeituras proíbem os nômades de erguer suas barracas. Em todo o Brasil, membros da etnia Calon, a mais pobre, vivem em condições precárias de saneamento e saúde.

Pela tradição de invisibilidade, boa parte se recusa a tirar carteira de identidade ou receber técnicos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística). Em meio à discriminação de séculos de história, lideranças ciganas de vários Estados brasileiros estão se articulando para levar finalmente cidadania a seu povo. No caso dos Rorananoa, Vit conta que eles pagam impostos para que na velhice possam aposentar.

O relato de ciganos vivendo em um galinheiro foi feito pelo antropólogo Frans Moonen, professor aposentado da UFPB (Universidade Federal da Paraíba). As famílias que vivem em acampamentos não possuem informações sobre controle de natalidade e uso de contraceptivos – descreve a paulista Lara Orlow, Calon de Guarulhos que freqüenta acampamentos pobres em Franco da Rocha. - Geram muitos filhos, e na maioria dos casos, entregam as crianças ainda recém-nascidas a outros ciganos com melhores condições de vida ou ainda os dão por adoção a gadjes (não ciganos), perdendo suas raízes, costumes e histórico cultural.

Consta ainda na reportagem que os ciganos têm agrupamentos significativos em municípios como Campinas (calcula-se que haja 400 famílias), Curitiba, Aracaju e Nova Iguaçu, entre outros. Apesar da diferença, ou mesmo rivalidade entre etnias como Rom (subdividida por sua vez em vários grupos), Calon e Cindi, há convergência no culto à família e, hoje, um início de aproximação visando a conquista de direitos para todos.

História

Eles chegaram ao Brasil acorrentados, no século 19, segundo a Associação de Preservação da Cultura Cigana (Apreci). De acordo com a reportagem, os negros viviam em situação melhor, pois recebiam comida já os ciganos nos arredores, e quando entravam na cidade não podiam nem pisar na calçada.

Até hoje, muitas pessoas têm medo de ciganos e atravessam a calçada, nas grandes cidades do Brasil ou da Europa, quando aparece um cigano. Os estigmas de ladrões, vagabundos – “raptores de criancinhas” – fazem parte do desafio histórico dos cidadãos ciganos. Miguel de Cervantes foi quem, em um de seus contos, disse que ciganos eram raptores.

Não há uma estatística segura, pesquisas já apontaram que são 150 mil, e em outras ocasiões 300 mil, 600 mil e 800 mil ciganos no país. No governo de FHC (Fernando Henrique Cardoso) eles foram reconhecidos como povo de cultura e costumes próprios.

Materia Media Max Jornal Mato Grosso do Sul


terça-feira, 15 de julho de 2008

Rebecca Covaciu

Racismo


Tristemente a Europa revive ondas de perseguição racista na Espanha, na Itália, Alemanha... sintoma que ganha força com a ascensão ao poder de figuras de direita como Silvio Berluscone, aliado aos fascistas (em especial à Liga do Norte da Itália). Ciganos, africanos, emigrantes asiáticos, e outros “diferentes” são perseguidos em muitas cidades e capitais européias, reproduzindo-se noite e dias que acreditávamos que não se repetiriam.
Abaixo trecho de matéria especial publicada em El País.com, hoje, domingo, 13 de julho.

Nas fotos: Em destaque, Rebecca Covaciu; e com toda a sua família romaní.

“Querida Europa...”



A menina romena e cigana (romaní), Rebecca Covaciu, resiste a uma vida de perseguição e miséria. Uma viagem “de tristeza” desde Arad a Milão, Ávila, Nápoles e agora Potenza.


Aos 12 anos, Rebecca Covaciu – olhos grandes, dentes brancos, sorriso esplêndido – viveu e viu tantas coisas, que poderia escrever, se escrevesse, um bom livro de memórias. Rebecca é romena da etnia romaní (cigana), e passou a metade de sua vida nas ruas. Dormiu em um furgão, uma barraca, ao relento. Por alguns dias mendigou com seus pais pela Espanha e Itália. Em outros, viu destruírem sua barraca, foi agredida pela polícia italiana, ouviu encoberta por uma manta como seu pai era espancado por defendê-la, viu morrer crianças por não terem medicamentos, conheceu o medo dos ciganos que fugiram de Ponticelli (Nápoles) quando seu acampamento foi incendiado. Mas Rebecca resistiu. E provocou comoção na Itália com sua história em primeira pessoa. Uma carta em que resume seu sonho: ir ao colégio e que seus pais tenham trabalho.