quinta-feira, 27 de março de 2008

O Povo Rom e Entrevista com Gipsy Kings


Gipsy Kings e o povo ROM
Stella Maris Mendonca e Pablo Kaschner


A origem do povo cigano � uma hist�ria cheia de mist�rios. Os documentos existentes n�o foram escritos por eles pois a caracter�stica principal de sua cultura � a oralidade e, al�m disso, sempre guardaram segredo de suas tradi��es numa tentativa de defesa da ra�a. Entretanto, � prov�vel que sejam do noroeste da �ndia (atual Paquist�o) e de l� tenham sa�do por pertencerem � casta dos parias, que trabalhavam como amestradores de animais, ferreiros e quiromantes, of�cios sem nenhum prest�gio dentro da hierarquia social hindu daquele tempo, por volta de 1.500 a.C. Outro ind�cio da origem indiana do povo cigano � a estrutura de sua l�ngua - o Romani, que � somente oral. No s�culo XVIII, foi provada a similitude entre o romani e o s�nscrito, a antiga l�ngua da �ndia. Por exemplo, a palavra rom, usada para designar cigano, � de origem hindu e significa homem ou pai de fam�lia, portanto, povo rom � o mesmo que povo cigano. Outra poss�vel origem do povo cigano � a eg�pcia, da� terem recebido os nomes gipsy, em ingl�s, e gitano, em espanhol. Na Gr�cia, receberam o nome de atkinganos, da� originando as palavras cygan, em polon�s; czig�ny, em h�ngaro; zigeuner, em alem�o; tsigane, em franc�s, zingaro, em italiano; e cigano, em portugu�s.



A busca de um lugar ao sol

Da �ndia os ciganos foram para a P�rsia e de l� chegaram � Europa Central, no s�culo XIV, espalhando-se rapidamente e formando diversas tribos. Na Gr�cia, muitos h�bitos e novas palavras foram adquiridos e, gra�as � grande quantidade de peregrinos que passavam pelo pa�s, conseguiram ser respeitados na sua condi��o constante de viajantes. Na Rom�nia foram escravizados durante cinco s�culos pelos propriet�rios de terras, pelo Estado e pelo clero, que os acusava de terem sido os art�fices dos pregos da crucifica��o de Cristo e, por isso, teriam de pagar sua culpa. Foi realmente um per�odo de muito sofrimento para um povo amante da liberdade. Em 1855, ao serem libertados, dividiram-se em novas tribos que se espalharam por diversos lugares. Apresentavam-se nas cidades como peregrinos crist�os com t�tulos de nobreza e, dessa maneira, conseguiam apoio e cartas de recomenda��o para as pr�ximas regi�es. Em troca liam as m�os, cantavam e tocavam instrumentos. Cada tribo tinha seu chefe, que fazia a apresenta��o do grupo � comunidade e resolvia as quest�es de sobreviv�ncia durante a perman�ncia naquele local.



Jordana Aristitch, escritora e bailarina cigana, autora de
A Verdade sobre nossas Tradi��es

A princ�pio, sua sedutora magia conquistou os comportados cora��es europeus. Mas, com o tempo, essa atitude foi mudando e logo receberam adjetivos como "os perigosos", "os in�teis", "bruxos", "vagabundos inquietos". Na verdade, o que aconteceu foi um tremendo choque cultural porque mendigavam nas ruas e ajudavam as pessoas com adivinha��es, o que lhes conferia certo poder ao conhecer seus segredos. V�rios governos tentaram medidas "protetoras" no sentido de acabar com o nomadismo, por�m foi tudo em v�o pois eles aceitavam e continuavam suas vidas de viagem, enriquecendo-se de novas culturas e enfrentando o �dio, a explora��o da m�o-de-obra, a inveja e a admira��o dos artistas. Por onde passavam, sofriam a persegui��o de terr�veis leis, como a pena de morte, a fogueira, a escravid�o, torturas, pris�es e o degredo.

Em Portugal era simplesmente proibido ser cigano pois a lei condenava a quiromancia, o nomadismo, a l�ngua romani, o uso das roupas exc�ntricas e o h�bito de morar pr�ximo uns dos outros.

Dessa maneira, chegaram os ciganos ao Brasil - na condi��o de degredados. Portugal mandava para sua col�nia os elementos indesejados, criminosos e os que incomodavam a ordem social. Os primeiros a chegar, em 1574, foram Jo�o Torres com sua mulher e filhos, logo seguidos por muitos outros. Aqui continuaram sendo perseguidos pelos gadjes, os n�o-ciganos, e suas atividades tradicionais se misturaram �s oportunidades da col�nia, participando do com�rcio de escravos e da corrida ao ouro. E enquanto aqui se discutia a Aboli��o, na Rom�nia eles eram escravos.

A hist�ria oficial do Brasil omite a participa��o folcl�rica e art�stica dos ciganos que, na �poca do Imp�rio, foram nomeados os festeiros da corte. Segundo especialistas, os ciganos que chegaram ao Brasil, entre os s�culos XVI e XIX, eram os calons, os ciganos ib�ricos. Posteriormente, milhares vieram para c� fugindo da Guerra Civil Espanhola e da Segunda Guerra Mundial, quando 500 mil ciganos foram assassinados pelos nazistas.

Ao longo de todas as andan�as e gera��es, o povo se dividiu em tr�s grandes grupos (os Rom, os Manouche ou Sinti e os Kal� ou Calons) e em alguns subgrupos com seus respectivos dialetos e atividades.

O grupo Rom, procedente da Iugusl�via, Hungria, Rom�nia, Turquia e Gr�cia, � o mais fechado e tradicional, n�o aceitando casamento com gadjes. Pertencem a essa tribo os subgrupos Kalderash, Lovara, Tchurara e Matchuaia, que possuem caracter�sticas pr�prias. Os Lovara s�o tratadores de cavalos, comerciantes de tapetes, ve�culos e sedas e s�o muito respeitados por sua sabedoria. J� os Tchurara s�o violentos guerreiros. Os Menouche vieram da Franca, It�lia e da Alemanha, e os Kal� s�o procedentes de Portugal e Espanha, os chamados ciganos ib�ricos.

Atualmente, h� no Brasil cerca de 150 mil ciganos, e os mais prestigiados socialmente s�o os Kalderash. Os Calons se encontram espalhados entre emigrantes portugueses e espanh�is, enquanto os Matchu�ia, do grupo Rom, s�o os que mais negam a cidadania, fato que triplicaria o n�mero conhecido da popula��o cigana no Brasil.

H� muitos artistas, pol�ticos, jogadores de futebol de origem cigana mas que n�o se assumem como tal. Assumir a origem cigana � uma postura pol�tica diante da sociedade e implica defender a hist�ria e a filosofia de vida de uma minoria �tnica. �s vezes, acontecem algumas revela��es p�blicas, como fez o m�sico e maestro mineiro Wagner Tiso.

Apesar de tantas persegui��es e fugas, os ciganos t�m sobrevivido gra�as ao seu esp�rito indom�vel, sua postura arrogante e seus truques e segredos que defendem a ra�a de uma total desintegra��o. Atualmente, discutem se � melhor, para a preserva��o de sua cultura, colocarem-se � margem do sistema gadje ou integrarem-se a ele mantendo, contudo, a identidade cigana.

Mas, afinal, qual � a identidade cigana? Al�m das constantes viagens, do amor � m�sica, � dan�a, � liberdade e da pr�tica da magia, esse povo tem um compromisso muito s�rio com a dignidade, com a palavra dada, com a fidelidade e a fam�lia. E por isso, podem chegar a atitudes extremas, como matar ou morrer. O culto aos antepassados, as peregrina��es feitas aos cemit�rios e os lutos prolongados mostram o orgulho de sua hist�ria. Por meio de encontros anuais em festas, como a do Divino, em Goi�s, ou em romarias a Saint Marie de la Mer, em maio, e � Virgem de Lourdes, na Fran�a, as tribos se encontram e atualizam suas experi�ncias. N�o h� registro escrito de nada porque para eles documentos s�o um limite � liberdade, assim como as autoridades, os hor�rios e a propriedade privada. Segundo pesquisa feita por Cristina da Costa Pereira, antrop�loga e cigan�loga, a rela��o com os propriet�rios de terra no interior do Brasil � muito tensa porque os acampamentos ocasionais assustam os fazendeiros que, apoiados pelas autoridades locais, entram em conflito aberto com os ciganos, gerando mortes e desaparecimentos.

A alfabetiza��o e educa��o das crian�as s�o feitas dentro da pr�pria comunidade porque, al�m de n�o existir uma escola adaptada � condi��o n�made, h� o preconceito institucional em receber crian�as ciganas. Essa atual marginaliza��o pode acarretar conseq��ncias bem mais s�rias, como um fen�meno ainda desconhecido: a delinq��ncia cigana. Segundo Manuel Mart�n Ramirez, ex-presidente da Associa��o Nacional Presen�a da Espanha, em entrevista ao jornal El Pa�s, a carta dos Direitos Fundamentais das Minorias �tnicas, baseada na declara��o dos Direitos Humanos, reconhece a identidade do povo cigano e sua autonomia cultural, mas isso precisa ser acompanhado por medidas concretas de desenvolvimento e preserva��o hist�rica.

Na Espanha, a nova estrutura urbana e o crescimento das cidades fazem desaparecer os bairros ciganos, quebrando, assim, uma caracter�stica tradicional, como � o caso do famoso bairro Sacramonte, em Granada, que vem sofrendo crescentes modifica��es.

H� uma lenda cigana que diz que quando um velho guitarrista ou cantor cigano percebe que vai morrer, ele canta ou toca para uma mulher gr�vida. A crian�a que nasce vai herdar esse talento.

E com voc�s, os Gipsy Kings!


Quando a colaboradora da Radio Nederland, da Holanda, f� dos Gipsy Kings, soube que o grupo, que se apresentaria no Maracan�zinho, estava hospedado em um hotel de Copacabana, correu para l�.

Segundo a recep��o do hotel, as credenciais para a imprensa j� haviam sido distribu�das, eles j� haviam concedido uma r�pida entrevista coletiva, j� haviam se retirado etc, etc. Ela, ent�o, viu uma escada atapetada, meio caracol, decidiu subir e chegou a um sal�o, onde algumas pessoas conversavam.

L� estava a banda. A mo�a apresentou-se e foi convidada a juntar-se ao grupo para irem juntos ao Maracan�zinho. Durante a viagem no micro�nibus, o grupo cantou e tocou como se estivesse em uma caravana. A entrevista aconteceu no camarim, com os irm�os Nicolas e Canut Reyes, que dedicou o show da noite � jornalista. O est�dio estava lotado e pegou fogo com a m�sica kundal�nica, quente, alegre, moura, apaixonada, dos Gipsy Kings, que reuniram, nessa turn� pelo Brasil, cerca de 65 mil pessoas.


Ap�s o show, a jornalista voltou para o camarim, e os seguran�as a confundiram com algu�m da banda. Ela, ent�o, acabou permitindo que a fam�lia cigana Vassite, de m�sicos brasileiros, entrasse no camarim para conhecer os ciganos franceses. Jordana Aristicth, ent�o esposa de Mio Vassite, escritora e bailarina cigana, garante que aquele foi "um encontro emocionante e n�o pude conter as l�grimas. Os Gipsy Kings s�o um exemplo de fidelidade �s suas origens, pois, como ciganos que s�o, assumem com orgulho e altivez sua ra�a."



Waneska Vassite, com a roupa usada na dan�a para os Gipsy Kings, no colo de sua av� Jordana Aristicth.

Na viagem do ano seguinte, os Gipsy Kings se apresentaram no Canec�o. A menina Waneska Vassite, neta de Jordana e Mio, ent�o com 5 anos, subiu ao palco e dan�ou ao ritmo do hit Bamboleo. Foi lindo e est�vamos l�. A jornalista era eu.

Em 2007, os Gipsy Kings completam 20 anos desde o primeiro disco que colocou duas m�sicas nas paradas francesas e espanholas e, depois, na mundial: Bamboleo, que fala de algu�m que � convidado para dan�ar, e Djobi Djoba, que narra um amor que cresce cada dia mais.

Com 15 CDs, o grupo continua na estrada, fazendo shows nos Estados Unidos, no Canad�, na Europa e na �sia. Conquistaram grande popularidade exclusivamente pela m�sica, sem muita m�dia e quase nenhuma badala��o ou apelo publicit�rio. H� mais de dez anos n�o se apresentam no Brasil, onde t�m um p�blico fiel, inclusive entre os mais jovens. No dia 24 de mar�o passado, a banda fez a grande festa em Bruxelas para comemorar os 50 anos do Tratado de Roma. Em recente contato, expressaram a vontade de um dia voltar a cantar por aqui. Resta a n�s, brasileiros, fazermos um convite para que venham e toquem juntos com nossos bons violeiros e m�sicos ciganos. Confiram a conversa com Fran�ois Canut que, al�m de guitarrista e cantor de voz rouca e forte, � pintor, e Nicolas Reyes, o vocalista principal da banda. Seu pai, Jos� Reyes, foi grande guitarrista, admirado por John Steinbeck, Chaplin, Picasso, Miles Davis e Salvador Dal�.

Condom�nio & etc. - Qual a hist�ria da forma��o da banda?
Nicolas Reyes - Somos cantadores ciganos e nascemos na Fran�a. O grupo surgiu do encontro de nossa fam�lia Reyes com os Baliardos, da regi�o francesa dos Pirineus. Os Reyes migraram do norte da Espanha para o sul da Fran�a, Arles, durante a Guerra Civil Espanhola. Nosso pai, Jos� Reyes, que tocou com Manitas de Plata Baliardo, no Carnegie Hall, � uma grande refer�ncia em nossas vidas e, recentemente, nossa fam�lia fundou a associa��o O Mundo de Jos� Reyes. Em uma romaria a Saint Marie de la Mer, em devo��o � Santa Sara, padroeira dos ciganos, eu e meus irm�os Pablo, Patcha� e Canut nos encontramos com nossos primos Tonino, Paco e Diego Baliardo, fortes na guitarra. Em meio a muita m�sica, uma mulher americana exclamou: "Voc�s s�o os Gipsy Kings!" O grupo tem 33 anos e come�amos tocando nas ruas, em casamentos e festas em Saint-Tropez, Montecarlo, Cannes, em toda a C�te-D'Azur, at� conhecermos um produtor. Gipsy Kings � um nome popular, mas o nome da fam�lia � Reyes.

C&etc. - Sempre cantaram m�sica cigana?
NR - Cantamos a m�sica cigana de uma outra maneira. Nossa m�sica tem um pouco de tudo: rumba, rock'n roll, flamenco, fanandango, um pouco do compasso africano, influ�ncia �rabe tamb�m e palmas. Eu me identifico com o Cante Jondo, e os meus irm�os, com a rumba flamenca, que � mais f�cil para dan�ar. O flamenco, a ess�ncia de nossa m�sica, expressa o grito e as l�grimas de nossa comunidade. A rumba flamenca, uma express�o mais popular, expressa a maneira feliz e sensual como encaramos a vida. Com as novas tecnologias � natural que a m�sica tradicional se transforme. � dif�cil explicar algo que est� no sangue, no esp�rito, no cora��o.

C&etc. - Voc�s gravaram o sucesso de Frank Sinatra My Way com o t�tulo A Mi Manera... Os cr�ticos classificam a m�sica do Gipsy Kings como world music. Voc�s concordam com isso?
NR - Nossa m�sica � uma rumba flamenca mais moderna, com bateria. Fazemos uma m�sica muito preparada. N�o � o flamenco tradicional da Espanha.

C&etc. - A m�sica brasileira tem a ver com o som dos Gipsy Kings?
NR - Sim. A m�sica brasileira est� um pouco dentro de nossa m�sica. Nossos ritmos t�m influ�ncia da m�sica africana.

C&etc. - O grupo � mais popular na Espanha ou na Fran�a?
NR - As pessoas gostam da gente tanto na Espanha quanto na Fran�a, mas n�s preferimos a Alemanha e gostamos muito dos Estados Unidos.

C&etc. - Qual o disco ou m�sica preferida?
NR - � dif�cil dizer... Gosto muito de Trista Pena e sempre me emociono quando canto essa m�sica.
Canut Reyes - Eu tamb�m sempre me emociono muito quando meu irm�o canta essa m�sica. [Nicolas canta um trecho da m�sica Trista Pena.]

C&etc. - Lind�ssimo! Que l�ngua � essa em que voc�s cantam e que tanto emociona?
NR - � uma mistura, uma m�lange, de catal�o, espanhol e um dialeto de nosso pa�s, o proven�al. Quando cantamos, as pessoas se sentem bem, esquecem das coisas ruins e ficam alegres. Transmitimos nossa hist�ria e cultura em nossas m�sicas.

C&etc. - Tem havido muita mudan�a de h�bitos entre os ciganos? Fui a um casamento perto de Bordeaux onde as pessoas n�o dan�avam... E as crian�as?
NR - N�o sei... Antes os ciganos se encontravam em um casamento e dan�avam, tocavam guitarra, era muito alegre. Hoje, os ciganos mudaram, est�o mais tristes. Nem ficam contentes de ver os Gipsy Kings... N�o sei por qu�. Trocamos as caravanas e cavalos por carros e avi�es. Sentimos falta de nossas fam�lias quando viajamos, mas as crian�as adoram os presentes que lhes trazemos.
CR - Eu adoro e me dou muito bem com todos os meninos e meninas do mundo.

C&etc. - Canut, fale um pouco de sua pintura.
CR - A luz e a natureza da Provence e da Camargue est�o sempre presentes em meus quadros. O momento de pintar � de paz e felicidade. Quando n�o tenho mais telas, pinto as paredes, mesas e cadeiras de minha casa. [Os quadros de Canut podem ser vistos no site canutreyes.com]



C&etc. - Gostariam de deixar uma mensagem especial?
NR - O melhor para os ciganos do mundo inteiro � o conv�vio e o sentir-se bem com muitas pessoas diferentes, ter uma vida tranq�ila e ser como todo mundo - cada um com sua casa, com um trabalho, com os meninos na escola. Isso seria melhor.

C&etc. - Muito obrigada. Muchas gracias.
NR e CR - Muchas gracias.



Discografia


Gipsy Kings (1988)
Mosaique (1989)
Allegria (1990)
Este Mundo (1991)
Live (1992)
Love and Liberte (1993)
The Best of the Gipsy Kings (1995)
Tierra Gitana (1996)
Compas (1997)
Cantos de Amor (1998)
Volare: The Very Best of the Gipsy Kings (1999, relan�ado em 2000)
Somos Gitanos (2001)
Tonino Baliardo (2003)
Roots (2004)
Pasajero (2006)






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Fonte Revista Condominio & etc. Numero 33

quarta-feira, 19 de março de 2008

Ciganos se adaptam ao mundo atual

Em janeiro de 1975, a versão brasileira da publicação regular O Correio da Unesco (editada no Brasil pelo Instituto de Documentação da Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro/RJ - ano 3, número 1) foi dedicada aos ciganos:


Casal de ciganos sedentarizados
Imagem: reprodução da capa da publicação (no acervo de Novo Milênio), com
foto de Joseph Koudelka, tirada de La Fin du Voyage, Editora Delpire, Paris/França, 1975

Os ciganos no mundo moderno

A educação abre novos horizontes para as famílias nômades

Arthur R. Ivatts (*)

Os ciganos são uma raça nômade, originária do subcontinente indiano, de onde saíram por volta do ano 1000, rumo ao Oeste. Hoje em dia, são encontrados no mundo inteiro, sendo seu número calculado em cerca de oito milhões de pessoas (N.E.: todas as informações desta matéria são da época da publicação, 1975).

Ao longo de sua história, como grupo minoritário, sofreram grandes perseguições (a última e mais terrível foi desencadeada pelo regime nazista). No século XX, muitos se estabeleceram, mas são consideravelmente mais numerosos os que continuam se deslocando como verdadeiros nômades. Devido a este nomadismo e à sua condição minoritária, muito poucos foram os que puderam aproveitar as oportunidades de receber educação. Não obstante, ultimamente se está procurando facilitar-lhes a instrução e outros serviços sociais.

"Errantes por toda a terra" - este é o início de um poema inglês sobre os ciganos - e efetivamente hoje eles podem ser encontrados em numerosas regiões do mundo. Em sua longa história, os ciganos despertaram em toda a parte o interesse de camadas muito diversas, da realeza aos camponeses. Interesse este que derivava de um dúbio sentimento de fascinação e temor.

Mas, independentemente das reações sociais ou políticas das pessoas quanto a este povo errante, seus costumes e suas origens despertaram sempre grande curiosidade. Até o século XVIII, os estudiosos não podiam dispor de informações autênticas sobre o tema. Nessa época é que os primeiros "ciganólogos" iniciaram amplas e sérias pesquisas. Graças a seu árduo trabalho, foi possível deixar claro que o berço dos ciganos é o Noroeste da Índia, de onde teriam empreendido a sua longa migração entre os anos 950 e 1000 de nossa era.

Antes dos esclarecimentos proporcionados por estes primeiros especialistas, nos países visitados pelos ciganos acreditava-se em todo tipo de histórias sobre suas misterioras origens, para o que eles mesmos contribuíram bastante, trazendo razões interessantes e peculiares para explicar sua presença. Devido a seus cabelos negros e sua tez morena, seu vestuário original e colorido e seus títulos de nobreza, suas pretensões culturais e territoriais pareciam verossímeis.

No princípio, afirmavam descender de cristãos exilados de um país chamado o Pequeno Egito. Freqüentemente apresentavam documentos que provavam que o Papa os tinha autorizado a vagar durante sete anos, em penitência. Com tais credenciais, não é de se estranhar que os povos que visitavam nas suas migrações os acolhessem de bom grado. Numa época em que o nomadismo tinha deixado de ser uma característica dos povos europeus e os transportes e as comunicações eram relativamente primitivos, a chegada de pequenos grupos nômades e não-belicosos constituía um acontecimento que provocava curiosidade e intrigava as pessoas. Devido às origens que reivindicavam, deram para chamá-los de "egipcianos" ou "ciganos", que não é mais que uma deformação desta palavra.


Cena em campo de ciganos na Grécia, que ilustra uma característica cigana: o amor pela criança
Foto: Silveste-Rapho, Paris/França, publicada com a matéria

Os ciganos, presentes em todos os continentes, devem ser muito numerosos. Não dispomos de estatísticas exatas, mas tudo parece indicar que, deixando de lado a Índia e o sudeste asiático, somam sete ou oito milhões. Mais ou menos a metade vive na Europa, sendo que dois terços na Europa Oriental. Os ciganos são também muito numerosos no Norte da África, no Egito, na Argélia e no Sudão. São ainda encontrados na América, de Pictou no Canadá ao Rio de Janeiro no Brasil, e também na Nova Zelândia e na Austrália. É possível que existam pequenos grupos na China, nas Filipinas, nas Índias Ocidentais e no Havaí.

Há uma infinidade de livros sobre os ciganos, mas muitos interpretam de maneira errônea a sua cultura. Há, não obstante, algumas características comuns que identificam os ciganos do mundo inteiro. O nomadismo foi e continua sendo uma parte muito importante da sua vida. Embora muitos já estejam instalados de maneira permanente, o afã de viajar é freqüentemente tão intenso que eles não resistem e voltam à vida nômade. Esta característica peculiar é naturalmente a que provocou sua dispersão pelo mundo.

A língua talvez seja o fator cultural mais poderoso de vinculação dos ciganos a um patrimônio comum. O "caló" (ou "romanó") é um idioma da família indo-européia e aí se deve ver o indício mais claro de que este povo procede da Índia. Os ciganos de países diferentes podem se entender graças a esta língua comum.


Sessão musical ao pé da fogueira, na Espanha: uma característica cigana é o amor pela música
Foto: Silveste-Rapho, Paris/França, publicada com a matéria

É interessante apontar que, ao longo dos séculos, houve sempre um certo número de trabalhos e ofícios tradicionais e onipresentes na vida cigana, embora os ciganos fossem adaptando seu modo de vida e suas sucessivas condições econômicas. A música e a dança são uma tradição entre eles, também os espetáculos ambulantes como as feiras e o circo. São tratadores de cavalos, dedicam-se a vários tipos de artesanato e as mulheres se especializam em dizer a sorte. Como povo possuidor de um patrimônio cultural singular, os ciganos têm um forte senso de auto-identidade.

Ultimamente, melhorando as possibilidades de educação em muitos países e a alfabetização ganhando maior importância, os ciganos puderam comprovar os inconvenientes do seu analfabetismo. Embora durante decênios e decênios tenham recorrido aos serviços de escribas da sua própria raça, agora sem dúvida sentem o desejo de que seus filhos compareçam à escola para aprender a ler e a escrever.

Talvez seja interessante citar um ou dois exemplos concretos para mostrar sua necessidade de instrução. Em muitos países, um grande número de ciganos já leva uma vida sedentária. Em alguns deles, a sedentarização é conseqüência de medidas coercitivas, que nem sempre deram resultados. O abandono da vida nômade os envolve forçosamente na vida de uma sociedade sedentária e os relaciona com ela. Por razões de emprego, segurança e informação, é indispensável saber ler e escrever para não ser um verdadeiro inválido social, incapacitado para os múltiplos detalhes da vida cotidiana.

Tanto para os ciganos sedentários quanto para os nômades, a educação deve proporcionar os instrumentos necessários para ler e para compreender os elementos essenciais de seus direitos, mas também, por exemplo, para estar a par do regulamento do tráfego. Devemos esperar que a instrução lhes dê a oportunidade de estudar e aprender melhor sua própria história e sua própria língua. Seu direito à educação está garantido pela legislação nacional e pelas declarações internacionais sobre os direitos humanos. Torna-se por isso surpreendente que sejam tão poucos os que parecem estar em condições de participar de uma vida escolar normal.


Ciganos, gitanos, zíngaros, gypsies, boemianos e muitos outros nomes designam o mesmo povo nômade que saiu da Índia e se dispersou pelo mundo. Caldeireiros, latoeiros, ourives, negociantes de cavalos, eles mantêm um forte espírito comunitário mesmo quando se tornam sedenários e deixam de falar a sua língua, o romani. Alguns abandonaram completamente o nomadismo, outros se fixaram temporariamente em um lugar. Para muitos ciganos a base física é um aglomerado de barracos nos arredores de uma grande cidade ou uma casinhola precária em um terreno abandonado, como a desta foto
Foto: Joseph Koudelka, in La Fin du Voyage, Editions Delpire, Paris, e publicada com a matéria

Tradicionalmente, o nomadismo foi a razão principal para que os ciganos não aproveitassem plenamente as possibilidades de educação. Os internatos escolares constituem uma das maneiras possíveis de superar os problemas do nomadismo, mas a experiência demonstra que as famílias se opõem vivamente a este sistema porque não desejam ficar separadas de seus filhos.

Também não se pode considerar que o ensino por correspondência seja uma solução prática, quando os adultos são analfabetos e não sabem orientar suas crianças nos estudos.

Mas seria um erro pensar que a insuficiente escolarização das crianças ciganas se deve a um só destes fatores. Na maioria dos casos, junta-se uma série de fatores mutuamente relacionados, muitos dos quais são comuns a todos os grupos minoritários. Numa sociedade fundamentalmente sedentária, o sistema de educação não pode, evidentemente, adaptar-se ao modo de vida errante: por isso, qualquer minoria nômade estará sempre em condições desfavoráveis, pelo seu próprio estilo de vida. Uma assistência irregular à escola certamente não facilita uma instrução eficaz.

É significativo que muitas minorias étnicas, cujo modo de vida se diferencia do da maioria, fiquem excluídas de serviços sociais como a escolarização. Este inconveniente muitas vezes se agrava, devido à discriminação e aos preconceitos, derivados na verdade de uma falta de compreensão mútua entre os grupos. Na prática, muitas escolas resistem, por este motivo, a aceitar crianças ciganas em suas classes.

Numa perspectiva histórica mais geral, os ciganos sofreram os efeitos desses preconceitos, assim como diversas perseguições, o que resultou, com freqüência, em que se mostrassem pouco atraídos pelas facilidades que a sociedade lhes oferecia, inclusive a instrução escolar.

Outra conseqüência desta falta de compreensão entre os grupos é que o temor é mais possante que a curiosidade, e uns e outros se sentem ameaçados, motivo pelo qual o intercâmbio, normalmente fecundo entre duas culturas, se vê detido pelos receios e pela suspeita de que o modo de vida da minoria sucumba à pressão cultural do grupo mais forte. Daí que os ciganos tendam a não enviar seus filhos aos centros docentes.

Esta resistência dos pais se deve às vezes a uma reação de orgulho: eles foram bem sucedidos na vida sem saber ler nem escrever. É, pois, natural que se perguntem para que seus filhos vão precisar do conhecimento que a escola lhes fornece.

Quando as crianças vão à escola, sua freqüência é esporádica e seus progresssos evidentemente limitados. É bem sabido que, para as crianças que procedem de um meio analfabeto, a escola se torna desconcertante e difícil. Os pais às vezes pensam que a escola existe para ensinar rapidamente seus filhos a ler e a escrever. Dá trabalho fazê-los compreender que é tão árduo e tão demorado adquirir tais conhecimentos básicos. E as crianças precisam de ajuda e estímulo constantes para superarem os obstáculos em que tropeçam.

As tentativas de obrigar as crianças ciganas a irem à escola, habituais em muitos países, têm sido em geral traumatizadoras para elas e para a escola. O meio escolar lhes é insólito e, o que é pior, freqüentemente sofrem hostilidade das outras crianças. Os professores nem sempre compreendem ou apreciam seu estilo de vida e os materiais de leitura geralmente têm muito mais que ver com os interesses e o ambiente dos alunos sedentários que com os seus. As experiências infelizes deste tipo contribuem para desalentar ainda mais as crianças nômades.

Em certos países - principalmente na França - tentou-se incrementar a assistência escolar mediante a concessão de incentivos econômicos, por exemplo, subsídios familiares. Embora deste modo se possam obter os resultados desejados, talvez isto aconteça as custas da felicidade da criança, devido aos interesses e às necessidades pecuniárias de sua família. Incentivos econômicos similares constituíram a base de certos planos de alfabetização de adultos, por exemplo, na Suécia.

Outro fator que dificulta a educação consiste em que muitos ciganos nômades vivem em acampamentos temporários e não-autorizados, onde inevitavelmente faltam serviços sanitários e abastecimento de água. Dada a insegurança destes locais e a inexistência dos serviços mais elementares, não é de estranhar que o fato de ir à escola pareça sem importância.


Família cigana em volta do caldeirão do jantar nos arredores de Belgrado, Iugoslávia
Foto: Silveste-Rapho, Paris/França, publicada com a matéria

A família nômade normalmente trabalha em grupo como unidade econômica e talvez esta seja a razão de muitas vezes considerar a educação como um fator que debilita a sua cultura. Para as crianças mais velhas, a freqüência à escola pode se tornar incompatível com sua função econômica no seio da família. Os ciganos acham que a vida nômade requer grande robustez física e que a escolarização impede seus filhos de se adaptarem a um modo de vida duro e vigoroso.

Não parece existir motivo sólido para que os sistemas de educação em geral e os centros docentes em particular não se possam adaptar suficientemente no sentido de acolher um grupo minoritário como os ciganos. Basta que todos os interessados dêem provas de flexibilidade e sensibilidade necessárias.

Freqüentemente, quando as crianças ciganas chegam pela primeira vez à escola, sua instrução prévia é mínima e estão atrasadas em relação a seus colegas. Se não são muito numerosas, a escola deve estar em condições de prestar assistência intensiva a cada criança em particular, a fim de que acabe por estar à altura do resto da classe.

Mas, quando se trata de muitas crianças, esta tarefa pode ser grande demais para a escola, tanto no que se refere ao pessoal quanto no que se refere ao espaço. Neste caso, serão necessários novos professores e novas salas para poder criar uma seção especial de recuperação, que pode ser organizada na própria escola ou, no começo, no próprio acampamento dos ciganos.

Uma experiência pedagógica num ambiente acolhedor e pouco formal contribuirá muito para avivar nas crianças a fé na sua incorporação posterior a uma escola comum. Em certas circunstâncias, quando um bairro inteiro é ocupado por ciganos, como às vezes ocorre em países como a Espanha e a França, a solução mais indicada talvez consista em criar uma escola exclusivamente cigana.

Mas qualquer que seja a reação institucional em relação às necessidades das minorias, será indispensável ter presente o que os beneficiários desejam para seus filhos em matéria de educação. Os pais devem participar de todos os níveis da tomada de decisões e, se possível, participar também do trabalho docente. Deste modo, se conseguirá que contribuam para configurar o seu próprio destino em harmonia e cooperação com o resto da sociedade.

Onde as escolas são integradas por muitos grupos sociais e raciais diferentes, é importante que o plano de estudos e, na medida do possível, o professorado reflitam esta diversidade de origens culturais. Também é importante que, nestas instituições plurirraciais, os materiais didáticos tenham relação com os interesses dos alunos e que se procure equilibrar adequadamente as culturas dos diferentes grupos. Deste modo, ficará realçada a fecundidade da vida escolar e se promoverá a compreensão e a amizade entre os alunos.

Torna-se evidente, nestes casos, a necessidade de dar aos professores uma formação complementar. É preciso, além disso, preparar livros e materiais didáticos, assim como métodos docentes, relacionados com as necessidades e os interesses dos diferentes grupos. A cultura cigana tem tradição muito rica e pode trazer uma contribuição positiva para a vida e o trabalho de qualquer escola.

A educação plurirracial tem o inconveniente de que o interesse de uma minoria pode entrar em conflito com os interesses da coletividade que a engloba. Por exemplo, são muitos os ciganos que desejam que, desde os 12 ou 13 anos, seus filhos assumam uma responsabilidade crescente na vida social e econômica da família. Em certos países este desejo se choca com a exigência legal de que os adolescentes freqüentem a escola até os 16 ou 17 anos.

O problema é delicado e deve ser abordado com prudência, já que se pode argumentar que o fato de que as crianças assumam papéis de adultos constitui uma formação importante por si só e que privá-las desta oportunidade, mantendo-as na escola, pode vir a ser contraproducente para o seu êxito na vida adulta. Mas, isto não é certamente privativo das minorias e sua aplicação é cabível para qualquer grupo social. De qualquer forma, não se deve negar, a quem deseja, a possibilidade de prosseguir seus estudos.

Tendo tudo isto presente, concluirei dando alguns exemplos de planos de educação para as crianças ciganas, aplicados em diferentes partes do mundo.


Numa estrada da Grécia, um cigano com seu urso domesticado que dança ao som de um pandeiro. Os ciganos são grandes criadores de cavalos para revenda, e muitos se destacam como amestradores de ursos, cães, macacos e bodes, que exibem em feiras ambulantes. Outros montam pequenos circos, nos quais se exibem como acrobatas e ilusionistas
Foto: Silveste-Rapho, Paris/França, publicada com a matéria

Assim, na França, facilita-se para os ciganos um número crescente de locais, onde são incentivados a permanecer durante mais tempo, para que possam aproveitar os serviços dos centros sociais e docentes mais próximos. Estimula-se também a freqüência regular das crianças, durante suas estadias de inverno mais prolongadas, a escolas municipais comuns, oferecendo-se muitas vezes incentivos financeiros. A política oficial em relação aos ciganos preocupa-se, na França, com o seu desenvolvimento social, que se espera conseguir por meio da escolarização, da educação sanitária, da economia doméstica, da formação profissional e da organização de atividades recreativas.

Na Suécia, a maioria das famílias já está estabelecida em moradias fixas e as crianças freqüentam escolas comuns, mas, muitas vezes, contam com os seus próprios professores, que lhes dão uma ajuda suplementar e permitem que se dediquem aos temas culturais que as interessem. Há também amplos programas de alfabetização para os ciganos adultos.

Os Países Baixos apresentam um sistema de acampamentos regionais muito grandes, em que existem escolas, clínicas, igrejas, campos de esportes e centros sociais, mas, na opinião de muitos observadores, esses acampamentos estão socialmente isolados e em geral distantes das cidades.

Na República da Irlanda, criaram-se várias escolas especiais, com a cooperação de organismos oficiais e de entidades privadas.

Nos Estados Unidos, existe uma escola especial para crianças ciganas em Richmond (Virgínia), custeada por fundos privados e que se dedica principalmente ao ensino da leitura e da escrita. Em Nova York, procura-se fazer com que as crianças ciganas sejam enviadas às escolas primárias oficiais.

No Reino Unido, onde o governo demonstrou seu interesse ajudando o Advisory Committee for the Education of Romany and Other Travellers, tem-se prestado grande assistência aos problemas educativos e sociais dos ciganos. Numa cidade inglesa, em que as famílias ciganas acampam ilegalmente em diferentes bairros, um ônibus escolar vai buscar o professor que, por sua vez, indica ao motorista onde deve ir para apanhar os alunos. Estes são levados a uma escola especial onde ensinam de maneira intensiva e individual a leitura, a escrita, a matemática e outras matérias. Quando já adquiriram certa confiança em si e conhecimentos suficientes, unem-se a seus irmãos na escola primária.

Cabe citar também o caso de algumas crianças que contam com a sua própria sala de aula, instalada num carroção no pátio da escola primária, onde recebem ajuda especial para sua alfabetização e para aprender outras matérias, incorporando-se ao resto dos alunos para brincar, nadar e fazer excursões. Depois, passam para as aulas normais, quando tanto os pais quanto os professores consideram aconselhável. Há, naturalmente, muitas crianças ciganas no Reino Unido que vão normalmente a escolas comuns, onde se procura facilitar seu progresso educativo e social.

Na Itália, organizaram-se no início do decênio passado (N.E.: década de 1960-69) alguns planos oficiais e privados para as crianças ciganas. Em 1965, o Ministério da Instrução Pública decidiu criar 11 salas de aula para crianças nômades, com o título de "Opera Nomadi". As escolas recebem o nome de "Lacio Drom" (Grata Viagem); em 1972 já havia 60 escolas deste tipo, com cerca de mil alunos, a metade dos quais assistia às aulas regularmente.

É difícil dar formação adequada aos grupos minoritários; para isso são necessárias muitas consultas e uma boa dose de reflexão. A instrução das minorias reveste-se de importância crescente, e uma política eficaz na matéria deve fomentar a compreensão e o apreço mútuo entre povos diferentes, que haverão de coexistir num mundo cada vez menor. E é justamente na escola onde se devem assentar as bases desta futura compreensão e cooperação.



(*) Arthur R. Ivatts, sociólogo e educador britânico, é especialista em educação de grupos nômades. Nessa qualidade, ele assessora a Comissão Consultiva para Educação dos Ciganos e outros Nômades, com sede em Londres, e também as autoridades educacionais da Grã-Bretanha, com vistas à integração de grupos nômades em programas de educação comunitária (N.E.: informações de janeiro de 1975).


Numa estrada espanhola, uma verdine, tradicional carroça cigana que aloja a família com todos os seus pertences e utensílios. Em 1975, na Europa Ocidental, a verdine puxada a cavalo já estava sendo substituída pela camioneta, mas o estilo de vida cigano quase não muda.
A maioria dos ciganos pouco se interessa pela acumulação de bens materiais. Segundo um provérbio cigano, "o homem faz o dinheiro, mas o dinheiro não faz o homem"
Foto: Silveste-Rapho, Paris/França, publicada com a matéria

Fonte Jornal Eletronico Novo Milenio

sexta-feira, 14 de março de 2008

ALÉM DA LENDA




PEÇA TEATRAL CIGANA,
EM UM ATO

Estréia Curitiba – abril de 2000
Texto: Claudio Iovanovitch [cigano matchuaia]
Direção: Neiva Camargo [cigana; esposa de Claudio Iovanovitch]
Elenco: Sílvio Almeida – Nuno (narrador)
Luci França – dança hindú (indiana)
Patrícia Casquilha – dança egípcia (dança do ventre)
Tereza Berger – dança espanhola (flamenca)
Juliana Gouvéia – dança cigana
Tatiane Iovanovitch – cigana sombra
Grazieli Iovanovitch – cigana sombra


[Abertura da cena, com dança indiana (hindú); seguem narração gravada e cena com Nuno tentando, em vão, sair da barraca (transparente), que o aprisiona, após o que ele inicia seu monólogo:]

Qual é meu nome?
- Nuno.

De onde venho?
- Não sei.

O que faço?
- Vivo.

No que acredito?
- Em tudo.

Qual a minha raça?
- Humana.

O que fiz?
- Não, não invadi, não saquei, não expulsei e nem escravizei ninguém.
- Não matei em nome de Deus.
- Nos mataram em nome de Deus.

De onde vim?
- Na inquisição espanhola nossas mulheres foram mortas como bruxas, os homens foram enviados para as galés e suas orelhas cortadas. O último refúgio para um perseguido era a igreja. Mas não para o cigano que mesmo dentro da casa de Deus, não encontrou abrigo. No holocausto não somos nem citados, mas 500 mil ciganos foram mortos. No julgamento de Nuremberg nenhum cigano foi chamado para falar da nossa dor. Entendemos que isto não foi obra de Deus e sim dos homens, que na sua ganância pelo poder deturparam a palavra de Deus.

[Entra a bailarina egípcia, após cuja dança Nuno declama “Sou Gitano”; fundo musical extraído de Carmina Burana, de Carl Orf]

Sou Gitano

Que horizonte é este que rasgo todos os dias
com minhas pegadas,
com as rodas do meu carroção?
Que coração nômade me impulsiona, me guia?
Que ponto cardeal guia a agulha da minha bússola?
Meu sangue não conhece outros caminhos,
senão todos os caminhos do desconhecido.
Meu mundo é todo mundo,
e as fronteiras são riscos em mapas que não existem.
Sou gitano, sou meu norte, meu sul, meu leste e meu oeste.
Sou gitano, e o meu mundo é velho conhecido dos meus olhos.
E Novo Mundo é amanhã e sempre.
Meu pai, meu avô, meu tio,
com suas músicas e anéis,
cruzaram a terra em xis,
na ida e na volta
deixando em cada outeiro berço e jazigo.
Nova pirâmide erguida a cada instância,
vindo de egípcias areais que meus olhos ferrabrases poliram.
Pólux é meu rumo, atlante meu aminhar.
Sou gitano, e meu canto é vida,
minha guitarra lamenta e compassa.
Minha alma trás vidrilho e medalhitas.
Traz esporas, traz touradas, banderilhas.
Meu ancinhar procura mais que ouro.
Quero a farroma e a festa, e não o ouro dos príncipes da terra.
Meu canto não faz reparo a damas ou meretrizes.
O fandango madraço ou vibrante
é o sino que respalda minha igreja.
Minha hóstia é o pão sarraceno,
meu purgatório é o jejum,
meu pecado é nenhum.
Não há quem mate por mim,
não há quem viva por mim.

Que crime cometi?
Não estar na História?
Qual? Na sua História?

- Na sua História fomos expulsos, perseguidos e mortos, sem ao menos saber por quê. Nos seus livros somos sinônimos de errantes, vadios e trapaceiros.

- A cultura do ter tem que respeitar quem quer apenas ser. Um Estado não é só um pedaço de chão, é muito mais que isso. É a forma de ser de cada um. É o seu costume, o seu pensamento. Preservar a cultura não é fazer uma estátua jorrando água. A minha cultura é a minha História. E a sua História não entende a minha cultura.

- Mas eu tenho a minha História.
Mas participamos também da sua História,
nas embarcações sobre os rios e mares que vocês cruzaram.

[Em gravação, é declamada uma poesia, em espanhol, sobre as embarcações nas galés. Depois Nuno continua:]

- A sua bandeira não é mais bonita do que a dele. O seu hino é tão bonito quanto o dele.

A globalização que vocês impõem é enfiada goela abaixo apenas com o propósito econômico. A nossa globalização é o nosso costume, a nossa cultura. Na globalização de vocês, vocês ouvem a mesma música, cheiram o mesmo perfume, comem o mesmo sanduíche e calçam o mesmo tênis. Tudo isso para ganhar mais dinheiro.

Claro que fomos omissos, o nosso anônimato deixou os seus famosos – Brahms, Liszt ouviram nossas músicas e se apoderaram. Até as nossas danças, dizem que são suas.

[Entra em cena a dançarina flamenca, após cuja dança Nuno continua:]

- Não, não estamos na sua História.
Não, não sabemos desenhar suas letras.
O seu calendário não é o meu.
A sua geografia não é a minha.
Não entendemos a sua língua,
mas procuramos aprender.
Sim, somos os índios da Europa.
Nossa História está na nossa memória,
na nossa música e na nossa dança.
Nossa fala não tem desenhos.
A nossa língua é nossa Pátria.
E nossa língua é todas as línguas.
Quando estamos alegres ou tristes, dançamos.

[Entra em cena a dançarina cigana, ao som de um tzardás, após o que Nuno continua:]

- Não queremos o ouro nem as terras dos reis, pois quando se morre talvez tenha sido melhor ter sido cigano do que rei.

Nós refletimos a sua liberdade, a sua esperança no amanhã .....

Viva cada dia percebendo o que a natureza lhe oferece.

A cada amanhecer você tem diante dos seus olhos um espetéculo maravilhoso e que muitas vezes você nem vê.

Não somos só um sonho, nós participamos da sua História, sem armas ou fazendo guerras, mas na alegria, na música, na dança, pois todos vocês têm um pouco de ciganos.

[Entram em cena a dançarina cigana principal, e mais duas ciganas co-adjuvantes, executando danças ciganas, após o que Nuno continua:]

- Os olhos azuis brilham tanto quanto os olhos verdes, ou até os olhos negros. Até derramam lágrimas iguais!

Vocês dividem as pessoas em cores!!!
Brancos, amarelos, vermelhos e negros.
Dividir as pessoas em cores .............
Seria como se nós quiséssemos dividi-los por música, ou por dança.
Que estupidez ........ !

Eu acho todas as cores lindas; todas juntas formam um grande arco-iris.

A glória, a fama para nós, não é importante, pois queremos SER e não apenas TER.

QUEREMOS APENAS SER LIVRES, LIVRES COMO O AR, LIVRES COMO O VENTO, LIVRES COMO AS ESTRELAS NO FIRMAMENTO.

[Nuno rompe a parede da barraca e, finalmente, está livre. Entra inicialmente a dançarina cigana que com ele dança, ao som de uma música dos Gypsy Kings; depois entram em cena as duas outras ciganas, e finalmente todo o elenco da peça. ]

FIM

Para a exibição desta peça (cerca de 40 minutos) em outras cidades, contate:

Claudio Iovanovitch
Rua Dom Orione 836
Santa Quitéria
80310-250 Curitiba – PR
Fone: 0xx41.244.5381

quinta-feira, 6 de março de 2008