segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Racismo no Futebol Italiano

Juventus recebe multa por insulto racista a Ibrahimovic
A Juventus da Italia recebeu uma multa de 20 mil euros (mais de R$ 51 mil) pela exibicao de uma faixa com os dizeres
"Ibrahimovic cigano infame" por torcedores do time, durante a partida contra a Inter de Milao, em 4 de novembro de 2007.

A faixa fazia referencia ao atacante sueco Zlatan Ibrahimovic, ex-Juventus, que tem origem bosnia.

De acordo com o tribunal, a multa da Juventus e' "uma evidente medida disciplinar pelo insulto enquanto expressao discriminatoria por motivos etnicos" o caso trata-se de uma "ofensa censuravel", que contem discriminacao por motivos de raca, nacionalidade, origem territorial ou etnica, prevista em artigo do Codigo de Justica Esportiva do pais.

Zlatan Ibrahimović Malmo, 3 de Outubro de 1981 Sueco

Image:Zlatan 060602.jpg

Filho de musico Cigano Bosnio e mae Croata, a sua primeira equipa foi o BK Flaag, um conjunto de bairro onde chegou com dez anos e que saiu aos treze, quando consegue assinar pela grande equipa da sua cidade, o Malmö, onde chegou ao ponto de pensar em abandonar o futebol depois de várias divergências com os treinadores.

Depois de uma breve passagem pelo Balcan, Zlatan regressa a sua antiga equipa com um novo contrato e com a determinação de acabar os seus estudos. Com 18 anos chega a primeira equipa do clube e afirma-se rapidamente, sendo o grande protagonista da subida do clube a primeira divisão. Um ano depois , só pensava em jogar numa grande equipa europeia.

Depois de o ter observado num particular em Espanha , Leo Beenhakker não hesitou em contratá-lo para o Ajax por 8 milhões de euros. O processo de adaptação à competição e a vida holandesa é lento e difícil. No principio, o seu carácter temperamental faz com que jogue menos do que o seu talento merecia, mas aos poucos vai-se ajustando ao que Ronald Koeman pretende dele e finalmente entra nos planos do técnico holandês. Uma final da Taça dos Países Baixos acaba por o consagrar, ao conseguir marcar o golo de ouro no minuto três do prolongamento e dar assim este título ao Ajax. Ibrahimovic melhora jogo a jogo e muitos dos grandes clubes europeus começam a se interessar neste sueco.

Alcança também a primeira internacionalização pela Suécia e é chamado para a Copa do Mundo de 2002 , ainda que Henrik Larsson o tenha tapado. No Ver?o de 2003 a AS Roma tenta contrata-lo, mas o Ajax ainda n?o estava disposto a cede-lo.

A Euro 2004, realizada em Portugal, acabou por ser a rampa de lan?amento definitiva para a carreira de Zlatan, que assombrou o mundo com um golo a It?lia, numa competi??o onde foi revela??o. Depois da Euro foi contratado pela Juventus, no ?ltimo dia de mercado, pagando cerca de 19 milh?es de euros. Zlatan justificou a Juventus o valor despendido, ao ponto de ser uma das maiores estrelas n?o s? do futebol da "Vecchia Signora", como do futebol mundial.

Mas com a descida da Juventus para a Serie B, Zlatan transfere-se para outro clube italiano o Inter de Milao. Hoje Zlatan e considerado um dos melhores jogadores do mundo, no ultimo ranking fa FIFA em que Cannavaro recebeu o premio mais importante da carreira Ibrahimovic ficou em Quinto lugar por apenas 3 pontos antes de Henry, o voto recebido mais importante foi de Felipao que considera Ibrahimovic e Cristiano Ronaldo os melhores jogadores da atualidade e que estao proximos do premio e que merecem. No ano que vem segundo Felipao Ibrahimovic e Cristiano Ronaldo brigarao pelo 1 lugar porem Ibrahimovic ainda tem um toque de ser pouca coisa melhor que C.Ronaldo, por ter as pernas mais Ageis e dribles mais intensos

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Discriminação na Suíça


Doudou Diene, relator especial da ONU, apresenta relatório sobre a discriminação na Suíça, em março de 2007

Legenda da foto: Doudou Diene, relator especial da ONU, apresenta relatório sobre a discriminação na Suíça, em março de 2007 (Keystone)

Em fins de agosto passado, eu - uma brasileira-suíça - participava do 85º Congresso dos Suíços residentes no estrangeiro.

O clima era de cordialidade, contudo o teor das intervenções deixava perceber uma certa tensão, uma dose de preocupação com os rumos que vem tomando o país.
Por Safira Ammann, Natal, Brasil

Durante três dias foram apresentadas ricas experiências realizadas pelos participantes e encaminhadas reivindicações aos representantes do governo então presentes ao evento. Mas havia no ar uma certa tensão.

Era como se aqueles suíços sentissem a necessidade de salvaguardar princípios, valores e costumes da pátria que eles haviam deixado há muitos anos, e que não era mais a mesma. Adicionalmente, a paisagem humana que eles cruzavam nas ruas, parecia-lhes muito diversa daquela de antigamente...

As transformações

Com efeito... Quem deixou o país até a década de 80, sente, ao retornar, profundas transformações por que ele passa, dentre muitas, as que foram provocadas pelo crescimento das migrações internacionais.

Por opção constitucional, a Suíça é acolhedora de refugiados políticos, e durante as últimas décadas viu crescer fortemente a entrada de demandantes de asilo, originários sobretudo do terceiro mundo e da ex-Iugoslávia.

Além disso, o mercado de trabalho helvético atrai mais de um milhão de trabalhadores do mundo inteiro, tornando a população cada vez mais internacional e multicultural.

Esse fato vem provocando sensível mal-estar entre os grupos de "xenófobos", expresso em observações como aquela que ouvi certa vez: "quando eu entro num trem em Berna, não sei mais se estou na Ásia ou na África... O que menos parece é que estou na Suíça... "

Diversas faces da discriminação

Os fenômenos da discriminação são bem conhecidos na Suíça. Órgãos nacionais e estrangeiros, públicos e privados registram permanentemente atos e suspeitas de discriminação.

O Ministério do Interior criou a Comissão Federal contra o Racismo (CFR) bem como o Serviço de Luta contra o Racismo, dotados de fundos significativos, que orientam a população e ajudam a comunidade na integração das raças, religiões e etnias.

Além dos órgãos federais funcionam localmente os Serviços de Consulta contra a discriminação racial, com atendimento integral e gratuito, o qual é complementado pelo Guia Jurídico, para prestar apoio e serviços às vítimas de quaisquer tipos de discriminação.

Em nível da sociedade civil existe uma forte e ampla rede de grupos e associações que batalham contra todos os tipos de discriminação: de origem, de gênero, classe social, raça, religião etc.

A CFR levanta os atos discriminatórios cometidos e publica os julgamentos e condenações dos culpados. O banco de dados da CFR informa que - entre 1995 e 2003 – foram dadas 241 queixas e julgados 123 atos de discriminação.

Em 81% dos casos os seus autores foram declarados culpados e punidos, sendo a maioria composta por grupos de extrema direita (neonazistas, skinheads, por exemplo). Dentre as vítimas, conforme o mesmo banco de dados da Comissão, os grupos mais frequentemente discriminados foram os estrangeiros em geral, os judeus, os muçulmanos, os negros, os requerentes de asilo e os ciganos.

Safira Ammann em seu escritório, em Natal.

Safira Ammann em seu escritório, em Natal. (swissinfo)

São os brasileiros discriminados?

Durante os 15 anos que residi na Suíça realizei pesquisa junto a brasileiros vivendo legalmente no país e uma das questões era a que se encontra supracitada.

A maioria dos entrevistados afirmou não se sentir discriminada e alguns que responderam afirmativamente acrescentaram que no Brasil chegaram a sê-lo de forma ainda mais radical e mais chocante do que na Suíça.

Uma jovem negra, por exemplo, fez concurso para um posto de trabalho numa importante empresa carioca, foi aprovada em primeiro lugar e em seguida preterida por uma branca, pois a empresa não admitia negros em seu quadro de pessoal.

Um brasileiro (branco) informou que, morando em São Paulo, foi repetidas vezes tratado com ar de desprezo, pelo simples fato de ser nordestino, e disse jamais ter sido inferiorizado na civilizada Suíça.

Diversa é a narrativa de uma brasileira discriminada no âmbito do trabalho no país de Guilherme Tell. Sendo há nove anos professora de uma creche, foi apresentada pelos colegas como candidata preferencial para o posto de diretora. Tinha passaporte suíço, formação profissional, competência e larga experiência na área, mas os pais dos alunos boicotaram sua candidatura, sob o pretexto de que não entregariam seus filhos a uma estrangeira. Felizmente, graças ao apoio massivo do corpo docente e de alguns pais de alunos, a brasileira foi eleita diretora.

A Suíça luta contra a discriminação

Em 1993 os Estados-membros do Conselho da Europa criaram a Comissão Européia contra o Racismo e a Intolerância (ECRI), composta por especialistas independentes de cada Estado membro.

Um dos principais instrumentos de trabalho dessa Comissão consiste no estudo e publicação de relatórios periódicos sobre a legislação e as políticas oficiais contra o racismo, a xenofobia, o anti-semitismo e a intolerância de qualquer espécie.

O terceiro Relatório da Comissão sobre a Suíça, publicado em janeiro de 2004, ressalta os avanços registrados, dentre os quais são destacados a interdição de toda forma de discriminação, conforme Art. 8 da nova Constituição (1999) e a criação de órgãos em nível federal responsáveis pela observância do que preceitua o referido Artigo.

O Relatório critica a discriminação observada em 16 diferentes setores da sociedade e apresenta ao governo 38 recomendações, entre outras: o aumento da oferta de estacionamento para os carros dos ciganos; a diminuição dos controles, pela polícia, dos estrangeiros que freqüentam casas noturnas; o combate mais intensivo às organizações racistas; realização de cursos de especialização para os professores que ensinem em classes onde grande parte dos alunos sejam procedentes de culturas estrangeiras.

Desafios futuros

A estrutura cultural da Suíça está sujeita a profundas transformações. A população estrangeira cresceu 39% entre 1990 e 2006, seis vezes mais do que a de nacionalidade helvética (incluídas as naturalizações).

No âmbito das religiões, o número de muçulmanos dobrou de 152.000 em 1990 para 310.000 em 2000. Um de cinco estrangeiros residentes no país é islamita.

O censo demográfico informa que 38% dos estrangeiros não falam nenhuma das quatro línguas nacionais como língua principal, o que dificulta a integração, e exatamente a integração seria a chave da convivência entre as raças, etnias e religiões.

Para agravar este quadro, a vitória da direita nacionalista nas eleições parlamentares de outubro passado foi pautada sobre uma campanha que defendia expulsar os estrangeiros envolvidos em crimes.

As imagens veiculadas por esse partido mostravam carneiros brancos expulsando do rebanho um carneiro de cor preta. O presidente da Comissão Federal Contra o Racismo publicou, em seguida, um livro com o título "Não somos um povo de carneiros – Racismo e Anti-racismo na Suíça", no qual analisa a problemática da discriminação de raça, religião e etnia.

Esperamos que esta publicação e os demais relatórios sobre o assunto não somente contribuam para entender a discriminação, mas, sobretudo, para reduzí-la – tanto na Suíça como nos países de origem dos discriminados.

Fonte Swissinfo

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Romani: língua esquecida na Europa

Rom e sintos: enfrentando preconceitos em vários países

Em toda a Europa, vivem aproximadamente 12 milhões de pessoas da etnia rom, 200 mil deles na Alemanha. Mesmo assim, pouco se sabe no continente sobre eles, quanto menos sobre seu idioma.

Há poucos povos ou etnias no mundo ocidental que são, via de regra, vistos a partir de tantos preconceitos e clichês com os ciganos: a discrepância entre informações reais e um suposto saber sobre a etnia rom, por exemplo, é incalculável. A discussão começa já na nomenclatura: eles têm que ser denominados rom ou podem ser simplesmente chamados de ciganos? E, neste contexto, quem são os sintos?

Tudo fica ainda mais complicado quando o assunto é o idioma falado por eles: o romani, que, apesar do nome, não pertence ao grupo das línguas romanas, como o português, francês, italiano, espanhol e romeno. O romani é um idioma muito antigo, que genealogicamente pertence à família indo-germânica, diz Kurt Holl, da ROM, uma associação sediada em Colônia, que auxilia refugiados rom a conseguir permissões de permanência e trabalho na Alemanha, além de servir, ao mesmo tempo, de centro cultural e de documentação sobre a etnia.

"O romani deriva, na verdade, do sânscrito. Somente a partir da língua é que se chegou à constatação, hoje já legitimada cientificamente, de que os rom não são uma minoria européia, mas vêm da Índia e, em função de longas caminhadas e expulsões, acabaram chegando na Europa", diz Holl.

Palavras: grãos que se perdem

Família rom, na RomêniaEstar sempre a caminho, de mudança de um país a outro, nunca se sentir em casa e ser visto em todos os lugares como um outsider tem sido o destino freqüente, ao longo de vários séculos, dos rom.

Nos locais aonde chegavam, o processo de adaptação acabava exigindo também mudanças idiomáticas, conta Jovan Nikolic, escritor rom da Sérvia, que deixou Belgrado durante a guerra no Kosovo e hoje vive em Colônia, na Alemanha. "Na grande fuga das tribos rom da Índia, muitos vocábulos foram sendo perdidos como grãos de trigo de um saco furado. E não tinha ninguém para ajuntá-los", completa Nikolic.

De todos os países onde viveram, os rom assimilaram algo da língua local, de forma que foram sendo criados diversos dialetos, estimados hoje em torno de mais de cem ao todo. Assim, este povo sem terra nem Estado, visto por todos os lados como hóspede, nunca conseguiu desenvolver uma versão padronizada da própria língua, nem nunca teve uma instituição capaz de organizar uma gramática comum.

Compreensão, apesar da diversidade

Menina de 12 anos da etnia rom, nas redondezas de BucaresteNo entanto, como algumas características básicas do romani, apesar da diáspora e de toda espécie de adaptação, se mantiveram intactas, é possível haver uma compreensão entre representantes dos mais distintos dialetos, afirma o ator, poeta e jornalista rom da Macedônia, Nedjo Osman.

"Tive a oportunidade de viajar muito como ator, estive por todo lado na Europa, nos EUA e no México, e encontrei pessoas da etnia rom em todos os lugares. Falei romani com eles e pude ser compreendido. Há muitos dialetos, mas, em princípio, é possível se fazer compreender sem maiores problemas", descreve Osman.

Hoje, os rom não são mais um povo que muda freqüentemente, nem que vai de um lugar para o outro como se estivesse em fuga. Muitos já se tornaram, há tempos, sedentários e o número daqueles que estudam regularmente e finalizam a vida escolar com boas notas é cada vez maior.

Mesmo que muitos deles escondam a origem rom, preferindo dizer que são gregos, espanhóis ou sérvios, de acordo com o país onde vivem, a consciência acerca da importância da cultura deste povo vem aumentando na Europa de hoje. Em Paris e Bucareste, há cadeiras de Romani nas universidades e uma equipe de lingüistas se ocupa, no momento, de estabelecer uma gramática comum e um extenso dicionário do idioma.

Responsabilidade dos escritores de hoje

Família rom em BelgradoO romani é uma língua em mutação: muito do que já fez parte do idioma desapareceu e precisa ser redescoberto. O que aumenta ainda mais o significado da literatura produzida pelos escritores rom hoje, pois cada palavra utilizada e cada frase formulada pode contribuir para a formação do que virá a ser a língua padronizada.

Quem hoje, como Nedjo Osman, escreve em romani, reformula também o mundo dos rom. "Escrevo poemas em romani há 20 anos e venho sempre tentando encontrar novos vocábulos. Isso é bastante difícil. Quando procuro determinada palavra num dialeto e não a encontro, parto para o próximo. O que importa é que as palavras sejam parte do repertório da linguagem dos rom. Isso é o que mais importa, até termos uma gramática e um dicionário padronizados", conclui Osman.

Zoran Arbutina (sv)

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Casamento Cigano

foto
Tradição e requinte num casamento de ciganos com 1500 convidados em Portugal

O casamento de Sílvio e Graciete só foi aceite depois de um grupo de ciganas ter confirmado a virgindade da noiva num ritual que decorreu numa luxuosa cama concebida pela estilista brasileira Célia Thyola. A festa prolongou-se por dois dias e só no sábado é que os noivos tiveram liberdade para namorar num hotel do Algarve.

Noite de quinta-feira. Num espaço reservado do Salão de Festas da Baracha, um grupo de ciganas mais velhas cumpre o ritual que certifica o casamento cigano. A confirmação de que a noiva está pura, “como Deus a trouxe ao mundo”, é fundamental para o êxito do matrimónio. “Quando ela não está pura não há casamento. Já tem havido brigas de morte”, explica o pai da noiva Ezequiel Limas. O anúncio da certificação do enlace é feito com a entrada dos noivos no Salão de Festas. São recebidos como reis. O novo casal, vestido a preceito, salta por entre os 45 padrinhos que são convidados de honra e ajudam a pagar a boda no dia seguinte. Agitam-se lenços brancos e a festa ganha ainda mais ânimo pela noite fora.

O casamento de Sílvio Oliveira e Graciete Limas começou na quinta-feira, 25 de Outubro, e juntou mais de 1500 ciganos na herdade que acolheu a Quinta das Celebridades, em Samora Correia. Os últimos convidados deixaram a festa na madrugada de sábado cerca das 04h00. Por essa hora, já os noivos estavam em lua-de-mel. Os primeiros dias foram passados num hotel luxuoso no Algarve antes de uma viagem de sonho a Paris. O programa na cidade Luz inclui visitas a museus e à Disneylandia.

“Vai ser um espectáculo. Sempre desejei ir a Paris. É uma cidade linda”, explica o noivo Sílvio Oliveira de 28 anos. Licenciado em Educação Social, o jovem da Chamusca trabalha no jardim de infância e na escola da terra onde é querido por toda a gente.

“Ele é um homem como deve ser. Estão aqui muitos ciganos que a pediram em casamento, mas eu não autorizei. Escolhi o Sílvio porque é um homem para a vida. É formado, sabe falar e não nos deixa ficar mal”, justifica Ezequiel Limas, o pai da noiva que na tradição cigana tem o poder de aprovar ou rejeitar o futuro genro.

A conversa decorre enquanto Graciete Limas, 20 anos, vestida com um elegante vestido laranja dança com as convidadas solteiras numa roda montada dentro duma tenda de grande dimensão. Os homens vão petiscando e bebendo no espaço em redor do salão de festas. O ambiente rural da herdade onde decorre a festa contrasta com o requinte das roupas e com os cordões e pulseiras em ouro que valorizam a indumentária na maioria dos convidados. “Há ciganos de todo o país desde Viana do Castelo ao Algarve”, explica o anfitrião Ezequiel Limas.

Dois porcos e uma vaca são assados no espeto. O cheiro abre o apetite a quem vai chegando e recebe as boas vindas dos pais dos noivos. Enquanto as mulheres preparam a comida à volta de grandes tachos e panelas na cozinha. A maioria das pessoas que serve os convidados é cigana.

Ao longo dos dois dias, o animador da festa, José Ribeiro só passa ritmos ciganos. “Eles apreciam todo o tipo de música, mas esta está na alma cigana e é com ela que se identificam”, justifica.

A tradição cigana é rígida e é para ser respeitada. Foi o pai do noivo que pediu ao pai da noiva autorização para o enlace. Manuel Estêvão de Oliveira, filho do falecido “Chamusco”, negociador de cavalos da Chamusca, fez o pedido que foi de pronto aceite pelo pai da noiva Ezequiel Limas.

Os novos compadres assumem a despesa da festa que deve custar cerca de 40 mil euros. Os 45 casais de padrinhos oferecem 250 euros cada para a festa do segundo dia onde se come de tudo e à grande na tenda montada no picadeiro da herdade. Um dos padrinhos lembra a necessidade de acertar contas aos microfones para que ninguém se atrase no pagamento. Também aqui é uma questão de honra e todos pagam em dinheiro vivo.

Já a nossa reportagem está no fim, quando o pai da noiva faz questão de frisar para não esquecermos a cama da noiva que nos deu o privilégio de ver em primeira-mão.

Uma cama das Arábias em tons de diamante e dourado com pedras “preciosas” cravadas. A obra foi concebida pela estilista brasileira Célia Thyola que consumiu mais de 450 metros de tecido luxuoso para fazer “uma peça única”. “Já fez milhares de camas, mas nenhuma como esta”, explica orgulhoso Ezequiel Limas para quem o dinheiro não é importante e a filha “merece um casamento de rainha”.

Nota do Blog:
Os Casamentos Ciganos variam de Acordo os Costumes de Cada "Vitsa" (de Cla pra Cla de Grupo a Grupo)

Fonte: Diario Regional de Portugal "O Mirante"

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Cirque du Soleil estréia show na Europa inspirado em Ciganos



A tradição circense e a cultura nômade dos ciganos são os temas do novo espetáculo do Cirque du Soleil, Varekai, que estreou na quinta-feira em Antuérpia, na Bélgica, sua turnê européia com presença brasileira no picadeiro.

O nome do espetáculo significa "onde quer que seja" no idioma romeno utilizado pelos ciganos. Com esse show, o Cirque du Soleil quer celebrar "a infinita paixão daqueles cuja busca os leva ao caminho de Varekai".

Varekai chega à Europa depois de passar um ano em cartaz na Austrália.

O show estreou no Canadá em abril de 2002 e, desde então, foi visto apenas em três países - além de Canadá e Austrália, também nos Estados Unidos.

A cultura cigana permeia todos os atos e ganha destaque em uma sessão de dança georgiana, com movimentos fortes e velozes que lembram a luta desse povo para resistir contra inúmeros invasores que tentaram dominá-lo no decorrer dos séculos.

Para completar o ambiente cigano, a compositora Violaine Corradi criou um repertório de canções que combinam melodias de rituais havaianos, músicas de trovadores franceses do século 11 e canções tradicionais armênias com arranjos contemporâneos em flauta e arcodeão tocados ao vivo.

Entre os 56 artistas de 18 nacionalidades que participam do show estão os brasileiros Rodrigo Robleno, que interpreta o palhaço, Natalia Presser e Michele Ramos, trapezistas paulistas que levam dois anos viajando com a trupe.

"É que o Cirque du Soleil adora brasileiros. Os brasileiros tendem a ser mais ousados. Quando perguntam 'será que vai dar para fazer isso?' nós, brasileiros, sempre respondemos 'claro, vai dar sim'. Os russos já são mais quadrados, têm mais medo de arriscar", conta Michele.

Do grupo de 20 artistas que fazia circo mambembe em 1984, o Cirque du Soleil evoluiu para uma organização artística internacional colecionadora de números que impressionam.

Atualmente, emprega mais de 3 mil pessoas de 40 países, entre os quais 900 são artistas. Chega a apresentar simultaneamente 13 shows em diferentes lugares do mundo e cada espetáculo implica em uma verdadeira comunidade itinerante, com fontes próprias de energia, escritórios administrativos, cozinha e escola.

Apenas com Varekai, viajam 180 pessoas e mil toneladas de equipamentos em 52 caminhões.

O show ainda não tem previsão de ir ao Brasil. Atualmente, o Cirque du Soleil está no país com o espetáculo Alegria, em cartaz até junho de 2008.

Confira uma Parte do Espetaculo






Fonte O Globo Online

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Em busca de Tarabatara


por Lila Foster

Em 2005, quatro amigos partem para Alagoas numa viagem de pesquisa para a realização de um filme. Com uma câmera Super 8 e equipamento de som, uma idéia inicial ia tomando forma na busca por uma experiência vinculada à geografia humana e física do lugar, e também por uma relação intensa de amizade entre os quatro, no compartilhamento de sonhos e noites de conversa sobre cinema embaixo do céu estrelado. Nessa andança, encontram um grupo de ciganos. Movida pela paixão pela vida cigana alimentada desde a infância (imagens dos ciganos em Campinas e na Sérvia), uma delas se aproxima do líder do grupo e pede para acampar por uma noite perto das tendas. A noite na fogueira, a conversa com o velho de mãos largas apelidado de Tarabatara, o cantar do “filho aluado” – todas as palavras, imagens e gestos marcam o grupo de forma tão forte que partem com a promessa de que voltariam.

Foi essa promessa de retorno unida à necessidade de garantir uma estrutura para passar mais do que alguns dias junto ao grupo que incentivou Julia Zakia (a menina encantada por ciganos) a escrever um roteiro de documentário para o Prêmio Estímulo do Governo do Estado de São Paulo. Baseado nas primeiras imagens produzidas ainda em 2005, o projeto foi contemplado no fim de 2006 e logo começou a ser produzido em parceria com Patrick Leblanc da Superfilmes. Equipe já formada, Julia partiria para Carneiros, Alagoas, junto com os outros três amigos (Gui César, Guile Martins, Laura Mansur).

Antes da partida, o filme estava totalmente em aberto. Nas conversas que tive com Laura, sempre com muita excitação e uma pitada de medo misturado com ansiedade, divagávamos sobre o que parecia incontrolável: será que eles encontrariam os ciganos? O filme seria sobre uma busca ou sobre o encontro? Como os ciganos iriam receber a equipe? Como seria passar dois meses junto com os companheiros de trabalho e os ciganos? Para quem observava o processo de fora, o filme parecia um salto no escuro: não existia nada de garantido além do desejo de encontrar o grupo de ciganos e o velho Tarabatara.

Na mala, além dos equipamentos, eles carregavam figurinos, fantasias, instrumentos musicais para uma mini-peça que pretendiam encenar nas pequenas cidades e feiras no caminho em busca dos ciganos. Nas palavras de Laura, o teatro “era uma maneira de trabalhar em grupo (e não só viajar), de ocupar nossas cabeças e corpos já com a magia das artes, e de chacoalhar um pouco de cultura e sonho em cada lugar do sertão nordestino”. Mas isso não aconteceu, pelo menos da forma como fora imaginado.

O ponto de partida escolhido foi Senador Rui Palmeira, a cidade na qual encontraram o Velho e sua família. Já na primeira volta, viram um dos integrantes do bando que indicaria o caminho para o acampamento. No fim da tarde, depois de 2kms de caminhada e com o sol já baixo, Julia, Guile e Gui avistaram o acampamento cheio de barracas, lonas e mulheres de vestidos coloridos. As primeiras imagens captadas em Super 8 (ainda de “tocaia”, nas palavras de Julia) foram ansiosas, assim como o primeiro encontro entre a diretora e o Velho que a reconheceu assim que ela chegou. Ainda sem falar sobre a filmagem, a equipe montou o seu rancho: uma lona para equipamentos e equipe no que seria uma casa de portas sempre abertas por dois meses.

Na primeira semana, a câmera não entrou em cena. O teatro foi uma forma de aproximar e explicar ao grupo de ciganos a motivação daquele encontro. Foi neste momento que mostraram a câmera, encenaram as suas funções e o seu envolvimento com cinema. A partir daí, a equipe começou a filmar o cotidiano das famílias, tendo em mente imagens e sons que deveriam ser captados – e um cronograma de filmagem. Apesar do preparo, a experiência da filmagem não estava engessada neste planejamento prévio. Se ia sim com um planejamento, o filme não tinha um “objetivo”, uma idéia a ser provada, um protocolo de ação. Assim, sem excluir uma organização da experiência, delineava-se um princípio ativo (talvez o que existe de mais rico no trabalho desse grupo): permitir que a experiência coletiva despertasse as imagens e os sons da forma mais natural possível. Antes de qualquer coisa existia a interação, o processo de troca entre os ciganos e a equipe, o tempo que teria que passar para que as relações se tornarem mais entregues.

Entre as conversas com os ciganos em volta da fogueira ou à noite antes de dormir, o trabalho foi ganhando “questões” muito vinculadas ao que se observava e vivia: o trabalho intenso das mulheres (descobriram que elas tomam conta de tudo no acampamento: buscar lenha, fazer comida, cuidar das crianças....), sempre com vestidos coloridos e pente na cabeça; as crianças fogueteiras que deram uma energia (e trabalho) não imaginada para o cotidiano; os momentos-limite de choque, não enfrentamento, com a tradição dos ciganos; e até mesmo a transformação desta tradição.

As filmagens acompanharam o que Julia descreve como um período de fortes mudanças para o grupo de ciganos. Por uma série de motivos, dentre eles o cansaço, pela primeira vez o grupo fixou um lugar para ficar por tempo indeterminado alterando o que seria o “cristal daquela sociedade”: a mudança, o nomadismo, a circulação pelo sertão. A fantasia e o sonho estavam sempre juntos com a realidade mais imediata e urgente.

Acompanhar tudo isso de perto não se deu sem medos e contratempos. Um deles foi a adaptação física ao novo espaço: dormir sem portas, alimentação diferente, banho uma vez ou outra. Doenças rondaram a equipe, mas nada que o cuidado com o outro, o eventual soro no hospital, e alguns dias na pousada mais próxima não fosse capaz de resolver. Lidar com as diferenças, a desconfiança mútua inicial, todo o processo de adaptação (com os ciganos e com a equipe) também foi algo que exigiu muito de todos, mas isso transformou o processo do filme mais fascinante principalmente pela coragem exigida.

Nas palavras de Julia: “...cada um da equipe viveu uma experiência, para o filme viver em dobro, mais que dobro. As amizades preferidas, os olhares escolhidos pra filmar, a voz de quem cantando, do cigano cantador, as saias das mulheres. Essas imagens foram nos guiando e também um planejamento de o que filmar do cotidiano, que horas tirar a câmera, as entrevistas noturnas, os acasos, o momento de ir dar uma investida no Velho. Todas as relações mudaram muito, a nossa pessoal da equipe, com cada um deles, e isso às vezes assustava um pouco, porque era muito de repente e de muitos altos e baixos. (...) Não ter teto e porta, e conviver com tanta gente, de todas as gerações, mais os animais, os costumes e os horários, se calar diante de tradições que fazem doer a alma, e outras que fazem chorar de alegria, de fazer parte dali.”

Em dois meses a proximidade era tanta que as mulheres trocavam confidências, Guile e Gui organizaram a gravação do show de um grupo musical dos ciganos e todos já tinham o seu lugar na roda de dominó. Aos poucos a ansiedade do início cedeu lugar ao medo da partida, que ia assumindo a forma de uma saudade antecipada e uma vontade de ficar.

Na volta para São Paulo, eu, que acompanhei de longe a gestação do projeto, aguardava ansiosa pelas histórias. E aqui é impossível não assumir que se trata de um relato feito por uma observadora amorosa. Gui César, Julia Zakia, Guile Martins e Laura Mansur são pessoas próximas de mim, e muito embora essa proximidade possa ser matizada (alguns me acompanham através de seus filmes, outros por conservas sobre cinema, a amizade e Laura é minha amiga de vida inteira), é inegável a força lançada no mundo por esses jovens realizadores.

Tarabatara é mais um filme do grupo Gato do Parque, que conta também com Hélio Villela Nunes (montador de Tarabatara). São amigos que dividiram teto, caminhos e funções nos curtas O Espetáculo Democrático (Gui César), O Chapéu do Meu Avô e A Estória da Figueira (Julia Zakia), Sobre a Maré (Guile Martins) e Chorume (Hélio Villela Nunes). Pela forma de (vi)ver o cinema em grupo, mas também pelo resultado já visto nestes trabalhos anteriores, esta amorosa observadora aguarda ansiosa as primeiras imagens deste novo trabalho – mas certamente não só ela, e sim todos que acompanham de perto os curtas brasileiros.







Fonte Revista Cinetica

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

MOSTRA DE SP TRAZ DRAMA DE CIGANOS VÍTIMAS DA MÁFIA ITALIANA


FILME MOSTRA DRAMA DE CIGANOS
VÍTIMAS DA MÁFIA ITALIANA
Por ALINE BUAES
A história traz à tona uma realidade muito conhecida pelo público brasileiro, mas com outros personagens e em cenário distante. No longa-metragem italiano "Sotto la Stessa Luna" (Sob a mesma lua, ndr), baseado em fatos reais, o jovem diretor Carlo Luglio apresenta o drama vivido pelos ciganos habitantes de uma periferia de Nápoles, considerada uma das cidades mais perigosas da Europa, lutando contra a polícia e as ações homicidas da Camorra, a violenta máfia napolitana. O filme, que fez parte também da seleção oficial do Festival de Locarno em 2006, estará presente na 31ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que começa nesta sexta-feira, dia 19 de outubro. A história se passa no bairro de Scampia, periferia ao norte de Nápoles, famosa por ser uma das regiões mais degradadas e problemáticas da cidade, conhecida como "paraíso das drogas" e que sofre com a forte presença da camorra. Em outubro de 2004, com o início de uma guerra entre clãs mafiosos pelo controle do bairro, dois jovens ciganos são brutalmente assassinados em uma região nômade de Scampia. Baseado neste fato real, que levou posteriormente a morte de mais de 50 ciganos inocentes, "Sotto la stessa luna" reconta a fuga de toda a comunidade à qual pertenciam as vítimas, na noite sucessiva ao crime. O diretor Carlo Luglio, que desde 2004 trabalha com estas comunidades ciganas, escreveu o roteiro através dos encontros com os próprios ciganos. Os atores, a maior parte amadores, foram selecionados entre a comunidade e os napolitanos habitantes desta periferia. A opção por manter o dialeto napolitano e o idioma romani (língua indo-ariana falada pelos ciganos) foi outra escolha do diretor com objetivo de manter o tom realista e documental do filme. "Partimos daquilo que ocorreu em junho de 2004 em Scampia, mas não nos detivemos apenas sobre o assassinato dos dois jovens romenos. Concentramo-nos sobre suas conseqüências, isto é, o êxodo imediato de cerca de 900 pessoas de dois acampamentos nômades, em meio a uma indiferença geral", explicou o diretor em uma entrevista realizada à imprensa italiana logo após a apresentação do filme em Locarno. "Começamos as filmagens enquanto a briga entre os clãs da camorra, que deixou mais de 60 mortos, estava no seu ápice. Ocorreram, inevitavelmente alguns momentos de tensão, e foi uma experiência muito dura para a equipe", continuou Luglio. A produção contou com financiamento do Centro de Documentação Anticamorra de Nápoles e foi apoiada desde o início pela associação cultural "Figli del Bronx", fundada por Gaetano di Vaio, um ex-presidiário e ex-criminoso napolitano que encontrou entre as comunidades ciganas de Scampia um apoio para recomeçar sua vida.
Di Vaio assina o roteiro do filme junto com Luglio.
18/10/2007 Fonte Agencia ANSA
Abaixo Confira um Trecho do Filme e Entrevista em Italiano