sexta-feira, 16 de maio de 2008

Nápoles em guerra aberta contra acampamentos ciganos

MANUELA PAIXÃO, Roma
Nápoles volta a ser notícia pelas piores razões, pois, nos últimos dias, converteu-se num cenário de guerra aberta contra os campos de ciganos. O saldo é de pelo menos seis acampamentos queimados, numa onda de cólera que estalou com a tentativa de rapto de um bebé de seis meses por uma rapariga romena, que foi perseguida por pais e vizinhos.

Napolitanos de todas as classes sociais voltaram a deitar fogo aos acampamentos já abandonados, para impedir que os ocupantes, de origem romena e balcânica, pudessem voltar dentro de dias para reconstruir um dos mais degradados subúrbios de Nápoles - Ponticelli.

Aos gritos e com actos de vandalismo, incitados pela multidão, iam dando vivas à destruição do bairro, hoje transformado num centro de crime, da Camorra, em particular do tráfico de mão-de-obra clandestina.

Na quarta-feira, em menos de duas horas, gangues organizados, lançaram o terror nas ruas de terra batida do acampamento. Às primeiras horas da manhã, a Itália assistia atónita às imagens que iam passando nas televisões: jovens armadas com cocktails Molotov atacavam com uma estratégia militar digna de um filme sobre a guerra no Vietnam e, no Iraque ou no Kosovo.

Com gasolina espalhada por toda a parte e o lançamento de garrafas incendiárias as línguas de fogo alastraram destruíram tudo o que encontraram.

É uma guerra contra um inimigo invisível que fugira horas antes. E agora, escondido atrás de árvores, sob pontes ou velhas casas, tenta proteger-se da multidão que grita: "Devem ser expulsos da Itália. Não devem mais raptar os nossos filhos."

A fumaca espalhou-se rapidamente e impediu a circulação dos carros. Os bombeiros tiveram dificuldades para dominar as chamas de 20 metros. E tudo isto passou em directo na televisão para toda a Itália ver.

E enquanto Ponticelli ardia, inflamava-se também o discurso político, com o assessor das Políticas Sociais de Nápoles, Giulio Riccio, a condenar a "agressão criminosa" aos campos e um documento oficial assinado por cinco conselheiros municipais a pedir a destruição dos todos os acampamentos habitados por romenos.

Tudo isto acontece numa altura em que já estava previsto o despejo dos ciganos romenos. No local será construída uma área residencial e um parque. A corrida das novas autoridades para iniciar os trabalhos, a 4 de Agosto, explica-se pelo facto de perder o financiamento público caso os prazos-limite não sejam respeitados.

Este tipo de projecto, na ordem dos 70 milhões de euros, não era oferecido a Nápoles há muito tempo. Já há dezenas de empresas candidatas à construção de casas.

Os incidentes registados em Nápoles, no Sul de Itália, levaram já as autoridades municipais da capi- tal italiana, Roma, de Turim e Mi- lão a anunciar ontem a criação de um comissariado para vigiar os romenos.

Em Nápoles há 2500 ciganos, mil da Roménia e 1500 dos Balcãs, segundo o grupo Opera Nomadi. Em Roma viverão 10 mil ciganos. Em Itália, ao todo, vivem de 130 mil a 150 mil, segundo as ONG, metade nacionais, 50 mil romenos e os restantes da ex-Jugoslávia.

Fonte: Diario de Noticias Internacionais